Sobre o Brasil “que dá certo”

Não, Maria Ribeiro, o Brasil que dá certo não é este que seguiu o trio elétrico do Baixo Augusta, no último sábado.

Esse é um Brasil legalzinho. Legalzinho pra você e até pra mim. Mas não é o Brasil que daria certo.

Eu não sou ranzinza.

Juro.

Mas quando pego ranço de alguma coisa, fico como quem engoliu o comprimido inteiro, mas só deglutiu metade.

O Acadêmicos do Baixo Augusta é um projeto que expressa demais a nova galera cult classe média engajada de esquerda.

São bonitos, são legais, são descolados, pautam as discussões da turma e estão no centro de São Paulo, estão do “lado certo da força”.

São mais do mesmo.

Repercutem um recorte da sociedade que mais parece uma galinha carijó. Aquela que bota um ovinho de nada e cacareja como se tivesse parido um avestruz.

Eu juro que não sou ranzinza.

Só foi de dar náusea ver aquela galera de colete laranja, fazendo perímetro com uma corda para restringir o povão de se aproximar do trio.

Povão não, aliás. Quem segue o trio do Baixo Augusta é parte dessa juventude paulistana descolada, que vive pensando um mundo melhor sem dizer bom dia pro porteiro.

Como é peculiar do Brasil, o cortejo do trio elétrico respeita de forma bem evidente a nossa cultura de castas.

Pra chegar bem perto do trio, só sendo “Global”, como deixam claras as fotos do dia do desfile, nas redes.

Não, não há fotos dos Brunos e Danielas que íam atrás do bando. Pra sair em foto de divulgação, só já tendo participado de, ao menos, um programinha da Globo.

O interessante é que tem bastante foto dos Joãos e Marias “ninguém”, afinal, eles estavam ali, bem perto das celebridades brancas, servindo-os e protegendo-os como de costume. Eles mesmos nem se dão conta de que só são bem vindos ali se for nesses termos.

Não, Maria. O Brasil não deu certo. E não dará enquanto não nos olharmos no espelho e assumirmos que reproduzimos no cotidiano aquilo que mais denunciamos de vez em quando.

O Brasil de verdade acordou de madrugada para pegar ônibus e metrô e ir até a Consolação servir vocês.

(em resposta ao artigo “Predicado”, de Maria Ribeiro, publicado no O Globo do dia 07/02)

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