Graça

Não preciso olhar onde.

Meu entorno imediato tem uns 2%, no máximo, de amigos “bem sucedidos”.

Mais 18% de amigos “empatados” em 0 x 0 com as expectativas “mínimas” que a vida cap(e)talista impõe sem que percebamos, quase.

Os demais são sobreviventes. Ferrados, endividados, derrotados, abaixo da linha do padrão que se estende sobre essa sociedade insustentável.

Desses 80% restantes, 90% se sentem culpados por serem o estereótipo da “derrota” sócio econômica, mesmo que sejam boa gente, bons pais e mães, pessoas do bem e de bem.

Somos sobreviventes amigos e amigas.

Sobreviventes.

Num período em que as diferenças se acentuam, percebam que somos a maioria. E por que não sermos felizes assim?

Somos sobreviventes, amigos e amigas.

Sejamos, pra além disso, felizes e contentes com o patrimônio que, de fato, tem valor.

Nosso patrimônio imaterial.

Sejamos felizes e contentes, amigos e amigas.
Isso ainda é de graça e por graça.

Números

Já são 11. Não dormi 4. Pra chegar às 13, saio até 12. Mas aí, gastarei 30. Se sair daqui 30, gasto 15. Chego e ainda tenho tempo pra 1 água ou 2 cafés. Já são 4 anos nesse projeto que era pra 2. Somos 11. Já fomos 25. Com a baixa de 14, ainda demoraremos 2 ou 3 para terminarmos as 7 torres.

Eu devia mesmo era ter feito aquele concurso em 2006. Tinha que estudar 7, 9 horas por 200 dias a fio. Mas garantiria 5 ou 6 mil por mês. Um dissídio de 7%, verba extra a cada 5 e aposentadoria depois de 25.

Agora já faz 9. Passei da idade máxima, 30. Passei muito. Tinha 30 em 2006. Sou de 76. Fiz 41 esses dias.

Nunca imaginei que a crise dos 40 fosse verdadeira. É. Tomo 4 comprimidos pra repor 2 hormônios e conseguir dar 1 a cada 3 ou 4 dias. Passo 12, 13 horas trabalhando, 6 vezes por semana, 50 semanas por ano, nos últimos 20 anos, ao menos.

Preciso pagar esses 200 metros do solo que piso em cima de umas 240 cabeças que moram nos 20 andares embaixo, mais as faculdades dos meus 2, 17 e 19, que não vejo há 7, 8 meses.

Eu vendo meu tempo em troca de números que não substituem o tempo que vendo. Eu compro números. Depois de todas as contas que faço e que fazem, o saldo é claro.

Zero.

O saldo é zero.

Minha consciência é negra

Dizem que sou branco. Sempre disseram. Nunca entendi muito bem esse negócio de cor. A gente é. É e ponto.

Ainda mais eu, que cresci na Vila Terezinha. Muitos de meus amigos eram negros. Mesmo na escola que estudei, onde se pagava mensalidade, um dos meus melhores amigos era o Marcelo, que descobri que era negro quando deixei de ser criança. Na verdade, foi quando deixei de ser criança que descobri que existiam os negros e os brancos.

Foi também quando percebi que os negros, em geral, sofriam mais do que os brancos.

Mais crescido, conheci o Marcos Davi, pastor negro, militante fundador do Movimento Negro Evangélico. Com ele, conheci as histórias mais tristes desse demônio conhecido pelo nome de preconceito , mas também conheci as histórias mais lindas. Foi quando me interessei pela vida do Martin Luther King e li umas 5 biografias seguidas. Quando conheci a Rosa Parks, Mandela, Desmond Tutu e meu conterrâneo Zumbi dos Palmares. Fui o único “branco” militante no Movimento Negro Evangélico por um tempo. Não era um movimento de negros ou brancos ou negros e brancos. Era um movimento de amigos.

Trabalhei em periferias, em escolas públicas, em igrejas simples, onde são mais “negros” do que “brancos”. Vi in loco os dados do IPEA se concretizando em assassinatos de amigos, filhos, pais, na desigualdade dos ganhos, na indignidade do desemprego e na falta de perspectiva para aqueles que sonhavam (quando a realidade, cedo, não lhes roubava os sonhos) com um futuro melhor.

Mas cresci no meio do barulho, do sorriso farto, da vida simples e do contentar-se com pouco, características peculiares de meus irmãos “menos favorecidos”.

Nesse dia especial, saúdo o Bidu, o Junior Salvador Lopes, o Ricardo Augusto, a Djamila, a Nilza Valeria Zacarias Nascimento, a Preta Ary, o Ariovaldo Santos, o JB Magalhães, o Paulo Lins e tantos outros amigos. Gente que amo.

Dizem que temos raça e que ela se caracteriza pela cor. Mas nunca ouvi ninguém dizer que consciência tem cor. E como minha consciência não tem cor, eu escolho o “negro” para colori-la.

Não que seja possível sentir a dor que tantos e tantas desses meus amigos e amigas já sentiram em suas vidas. Mas que a força da celebração e o empenho na luta sobrepujem toda maldade, nesse dia ao menos, como sinal de luz para dias cada vez melhores.

Celebremos, amigos, o dia da nossa consciência. A minha é negra.

Nova fábrica joseense: bem-vinda!

São José está uma está uma pista de rali Aproveitem, jovens e adultos inconsequentes. Sem radares nas vias. Dá pra atingir 160 Km/h no Anel Viário. Deve-se frear um pouquinho antes da curva do Objetivo, mas já dá pra entrar acelerando novamente assim que a tangente for completada. Na altura da entrada do Parque Industrial, atinge-se a velocidade máxima.

Não, não… Não se enganem, meninos e meninas. Os radares estão escondidos aqui e acolá. Sim. Seja bem vinda, Indústria da Multa. Já temos até sede para oferecer. Pode ser um pedaço da Fundação Cultural, que anda sucateada mesmo. Reitero a função primária dos radares e qualquer outro instrumento inibidor de um comportamento que gere risco ou dano social: a de educar o cidadão. A multa não é, nem deve nunca ser, uma possibilidade de receita, mesmo que para o uso em algo legítimo.

A multa é um importante regulador de comportamento no trânsito, mas não um fim em si mesma. Sendo assim, esconder radares atrás de placas é um absurdo. Se não pode ser visto, não cumprirá sua função primária: a de inibir a transgressão. E, como dito acima, não é essa a sua finalidade. Podem fazer alternâncias, usar radares móveis, pensar em alternativas que gerem educação e maturidade no trânsito de nossa cidade. Mas o modo que estão tentando implementar é inaceitável. Não tem propósito, nem resultado justificável. Prefeito querido, não duvido de vossas boas intenções, mas não menospreze sua própria inteligência e a de sua equipe.

Muito menos a nossa..

 

Os mortos

Nunca fui muito de ir ao cemitério.

Ía mais quando criança.

Meu pai sempre respeitou os mortos. Foi um habilidoso carregador de caixões em ofícios fúnebres. Em cortejo de amigos importantes, saía até em foto no jornal carregando o defunto.

Perdi gente muito querida nos últimos anos.

Isso me fez adquirir esse hábito.

De vez em quando vou ao cemitério. Vou sozinho. Visito minha avó, minha tia, o Roberto.

Converso um pouco. Finjo que me ouvem.

Sei que não me ouvem. Mas eu os ouço.

Minha avó pergunta do meu pai. “O Tim tá bem?”. Respondo que sim, que já está andando de novo e que sente saudade. Falo de mim, que eu nunca mais tomei café, nem comi suspiro. Falo que minha tia, que sempre morou com ela, está sobrevivendo até bem.

Minha tia pergunta de cada filho. Falo do que sei. Às vezes, minto. Não digo que, depois que ela se foi, não nos reunimos mais. Falo que minha mãe sente muito a sua falta. Que colocou uma foto dela no quarto. E que chora escondido de vez em quando.

Ouço o Roberto me falando com aquela voz rouca, me chamando de “teólogo”, com um respeito cheio de ironia, falando pausadamente, não acreditando no que lhe reporto, mas me dizendo pra continuar.

Acho mesmo que eles não me ouvem. Sei lá.

Mas eu os ouço. Disso, tenho certeza.

Eu os escuto, cada um deles. Os escuto porque vivem em mim, são parte de mim, do melhor do que sou.

Por isso vou ao cemitério. Pra lembrar que aqueles que nos amaram e a quem amamos, continuam vivos em nós e, em nós, viverão para sempre, assim como quero viver em meus amigos, em meus filhos e em seus filhos…

Quarenta e dois anos

Quarenta e dois anos.

Quarenta e dois anos atrás.

Quarenta e dois.

Silvaldo Leug Vieira retratava uma das maiores farsas de toda ditadura militar.

Aquele homem franzino, de expressão forte e personalidade resignada.

Não foi capturado. Por vontade própria, depois de haver sido procurado por agentes da Polícia Civil, apresentou-se no temido DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), de onde não sairia vivo.

Sete horas depois, Silvaldo, aluno de fotografia criminalística na própria Polícia, foi convocado para seu primeiro trabalho sigiloso, fotografar aquele homem que havia cometido suicídio, enforcando-se de um altura impossível de se morrer.

Vieira, 22 anos, sabia que estava presenciando uma fraude. Só não sabia da estatura social de Vladimir Herzog, chefe de jornalismo da TV Cultura, militante pacífico do Partido Comunista Brasileiro, amigo, marido e pai de duas crianças.

Duas noites antes, o jornalista Paulo Markun o havia avisado que não deveria ir ao DOI-CODI, pelo contrário, deveria fugir. Herzog não atendeu. Era impossível que algo lhe acontecesse assim, de forma clara, uma vez que nada teriam para aludir contra ele.

Aconteceu.
Ninguém registrou as horas de tortura. Ninguém gravou os gritos de dor e desespero.
Uma Yashica 6×6 TLR, clicada pelo jovem Silvaldo, imortalizou aquele homem já sem vida. “Cliquei com medo. Não me deixaram nem fazer as tomadas que qualquer fotógrafo faria. Cliquei e, assim que a foto foi feita, me tomaram tudo”, lamenta o fotógrafo que partiu do Brasil anos depois, para nunca mais voltar.

E nós ficamos aqui, com o gosto amargo na boca. Gosto que não passa.

Quarenta e dois anos depois, o espírito livre de Vladimir ainda paira sobre os ares de uma democracia instável e confusa, denunciando toda censura como absurdo e toda tortura, velada ou escancarada, como crime.

Quarenta e dois anos depois.

É por isso

Por que pensar assim com trinta e…
Não terminei. Eu esqueci minha idade. De verdade.
Não são muito anos não. Mas já não são tão poucos assim.

Já experimentei bastante coisa no chão dessa vida.
Muitas sensações, cheiros, gostos, desgostos, sentimentos diversos, antagônicos, extremos, opostos.

É impossível se definir uma biografia.
É impossível, inclusive, recontá-la, toda.

Então, elegemos algumas coisas que são comuns no relato todo, estabelecemos uma linha diretora e, a partir disso, escrevemos do lado esquerdo e do lado direito, os capítulos que nos descrevem.

Minha linha, conheço bem.

É uma insatisfação perene, muito de vez em quando, preenchida por algum contentamento pontual com algo que a vida me oferece. Parece negativo, mas não é, eu acho… É o reconhecimento da minha alma, anterior a qualquer possibilidade de intervenção de minha razão, de que eu (e acho que, no final das contas, estou acompanhado de muita gente) sou um ser infinito e de que nada que seja finito, portanto, nada que habita esta terra finita, tem a capacidade de me gerar este contentamento absoluto.

Minha natureza me diz que eu e meus irmãos somos seres de uma transcendência irrefutável, cujos objetos mais valiosos, neste mundo, ainda se mostram inadequados para preencher tamanho vazio cósmico que nos habita e que as coisas que mais chegam perto de nos inteirar são as imateriais.

Se somos esse projeto infinito, inseridos numa esfera tão repleta de finitude, o que nos preencheria? Só algo que remetesse ao eterno, e nada mais eterno do que o efêmero, aquilo que acontece ordinariamente, cotidianamente, sem, muitas vezes, que se perceba.

Portanto, amigos, como é que seremos completos, enchendo-nos de vazios? O consumo daria conta? A religião? As ideologias, os partidos, as estruturas sociais? A ciência? A lógica? A filosofia? O quê?

Onde é que repousaria nossa alma infinita, senão nos lampejos de eternidade que nos cercam de forma tão singelamente imperceptível?

Minha linha biográfica é a eterna insatisfação de uma alma infinita, que existe para procurar, perceber e usufruir das centelhas do eterno que existem aqui e ali, como numa brincadeira de esconde-esconde, onde o sagrado vai deixando pistas de que ele caminha por aqui, como eu e você, seres infinitos, sofrendo de finitude à procura do ser infinito, que sofre de eternidade.

É por isso que a vida é bonita e que as almas de todos são impressionantes, transcendentes e respeitáveis. E é por isso que a jornada nesta terra me parece valer a pena, mesmo que esta insatisfação crônica nos faça sofrer, porque, no final das contas, ela é a prova de que a vida é maior do que este mundo e nossa existência é mais infinita do que qualquer lógica que tente limitá-la e que se este anseio pelo eterno foi plantado em nós, é porque existe colheita num terreno para além do que conhecemos.

Maria, Aparecida

Gosto muito da teoria do estranhamento de Marx.

Ele diz que os mais pobres, como que no intuito de transporem suas limitações econômicas, investem em projetos maiores, como a igreja por exemplo, para se sentirem comunitariamente bem sucedidos, já que não se sentirão pessoalmente.

O problema é que quando vão frequentar a catedral, fruto de seu investimento, estranham tamanha suntuosidade, expressão já não mais de seu projeto coletivo, mas da grande diferença entre sua realidade e a daquela construção.

Não gosto das catedrais e do que elas reproduzem, mas aprendi a gostar de Aparecida, a expressão brasileira de Maria, a mãe de meu Jesus.

Uma santa que é “a nossa cara”, a cara da mãe brasileira, “preta” e pobre, que vive à margem, lutando pela vida e pela sobrevivência dos seus filhos.

Por que milhões de casas em nosso país têm uma imagem de Aparecida pendurada n’algum cômodo? Porque, diferente da catedral, ela é a imagem da empatia. É parte da família brasileira. É a figura daquela que, negra e mulher, tendo vencido a adversidade da vida, pode inspirar-nos a vencer também as “catedrais” das dificuldades que se impõem sobre o povo sofrido de nosso país.

Quantas Marias e Aparecidas e Maria Aparecidas conhecemos, mulheres que carregam no nome um legado de luta, revestido da beleza e da singeleza que adornam e força feminina.

Nesse dia 12, Maria, Aparecida, a mãe brasileira de Jesus, mulher, preta e pobre, que luta pela vida e pela sobrevivência de seus filhos, tem meu respeito.

Diferente do que produzem as catedrais e seu espírito, você é a imagem da mulher brasileira.

 

O prato do dia

Um monte de gente escreve.

Isso é tão bom.

Escrever é alargar ao extremo as fronteiras do ser.

Num mar de tantas palavras, expressões, orações, sentimentos, por que se escrever? Ou melhor, escrever o quê? E pra quem?

Eu escrevo porque amo. Porque, quando escrevo, converso comigo mesmo. Não me preocupo em ser lido, mesmo escrevendo para o ser. Ao ser lido, me misturo com o outro.

Escrevo pra mim. É uma ação quase involitiva.

Escrevo para o outro. Pra que meus capítulos sejam ampliados na vivência alheia. Para ser identificado e para me identificar. Ser reconhecido e reconhecer.

O que escrevo? Qual é esse meu “o quê”? Meu “o quê” é o prato do dia. 
Eu escrevo sobre o prato do dia.

Tem dia que é feijoada, cheia de cores e sabores. Ninguém come feijoada sozinho ou quando está triste. Feijoada é abundância. 
Tem dia que é carne vermelha na brasa. Um bom churrasco nunca é saboreado solitariamente. Churrasco é presença, é preparo e cheiro, regado a conversa alta.
Tem dia que é arroz e feijão. Não tem graça nenhuma, mas é necessário, alimenta, mantém vivo.
Tem dia que é angu. Só angu. E com caroço. Sem graça, sem sal e enganoso. Você morde com tudo e quase quebra o dente, achando que não tinha nada dentro daquela gosma sem graça. E tinha. Um caroço duro, pra acabar de ferrar.
Tem dia que é morango com leite condensado. E você (especialmente com mais de 20), sabe muito bem como se come essa sobremesa impudica.

Sou o mais trivial de todos os escritores. O mais óbvio dos autores.

Um cozinheiro das palavras.

Um degustador de orações.

Escrevo sobre o prato do dia.

Às vezes, com graça.

Noutras, sem graça nenhuma.

Mas esse é meu “o quê” e sou feliz assim.