Os mortos

Nunca fui muito de ir ao cemitério.

Ía mais quando criança.

Meu pai sempre respeitou os mortos. Foi um habilidoso carregador de caixões em ofícios fúnebres. Em cortejo de amigos importantes, saía até em foto no jornal carregando o defunto.

Perdi gente muito querida nos últimos anos.

Isso me fez adquirir esse hábito.

De vez em quando vou ao cemitério. Vou sozinho. Visito minha avó, minha tia, o Roberto.

Converso um pouco. Finjo que me ouvem.

Sei que não me ouvem. Mas eu os ouço.

Minha avó pergunta do meu pai. “O Tim tá bem?”. Respondo que sim, que já está andando de novo e que sente saudade. Falo de mim, que eu nunca mais tomei café, nem comi suspiro. Falo que minha tia, que sempre morou com ela, está sobrevivendo até bem.

Minha tia pergunta de cada filho. Falo do que sei. Às vezes, minto. Não digo que, depois que ela se foi, não nos reunimos mais. Falo que minha mãe sente muito a sua falta. Que colocou uma foto dela no quarto. E que chora escondido de vez em quando.

Ouço o Roberto me falando com aquela voz rouca, me chamando de “teólogo”, com um respeito cheio de ironia, falando pausadamente, não acreditando no que lhe reporto, mas me dizendo pra continuar.

Acho mesmo que eles não me ouvem. Sei lá.

Mas eu os ouço. Disso, tenho certeza.

Eu os escuto, cada um deles. Os escuto porque vivem em mim, são parte de mim, do melhor do que sou.

Por isso vou ao cemitério. Pra lembrar que aqueles que nos amaram e a quem amamos, continuam vivos em nós e, em nós, viverão para sempre, assim como quero viver em meus amigos, em meus filhos e em seus filhos…

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