O prato do dia

Um monte de gente escreve.

Isso é tão bom.

Escrever é alargar ao extremo as fronteiras do ser.

Num mar de tantas palavras, expressões, orações, sentimentos, por que se escrever? Ou melhor, escrever o quê? E pra quem?

Eu escrevo porque amo. Porque, quando escrevo, converso comigo mesmo. Não me preocupo em ser lido, mesmo escrevendo para o ser. Ao ser lido, me misturo com o outro.

Escrevo pra mim. É uma ação quase involitiva.

Escrevo para o outro. Pra que meus capítulos sejam ampliados na vivência alheia. Para ser identificado e para me identificar. Ser reconhecido e reconhecer.

O que escrevo? Qual é esse meu “o quê”? Meu “o quê” é o prato do dia. 
Eu escrevo sobre o prato do dia.

Tem dia que é feijoada, cheia de cores e sabores. Ninguém come feijoada sozinho ou quando está triste. Feijoada é abundância. 
Tem dia que é carne vermelha na brasa. Um bom churrasco nunca é saboreado solitariamente. Churrasco é presença, é preparo e cheiro, regado a conversa alta.
Tem dia que é arroz e feijão. Não tem graça nenhuma, mas é necessário, alimenta, mantém vivo.
Tem dia que é angu. Só angu. E com caroço. Sem graça, sem sal e enganoso. Você morde com tudo e quase quebra o dente, achando que não tinha nada dentro daquela gosma sem graça. E tinha. Um caroço duro, pra acabar de ferrar.
Tem dia que é morango com leite condensado. E você (especialmente com mais de 20), sabe muito bem como se come essa sobremesa impudica.

Sou o mais trivial de todos os escritores. O mais óbvio dos autores.

Um cozinheiro das palavras.

Um degustador de orações.

Escrevo sobre o prato do dia.

Às vezes, com graça.

Noutras, sem graça nenhuma.

Mas esse é meu “o quê” e sou feliz assim.

2 ideias sobre “O prato do dia

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