Não é tudo a mesma coisa

Quando o Fredy Cunha fez 5 anos, ganhou uma bateria infantil do tio Humberto. Eu tinha 9, quase 10. O Fredy nunca gostou de bateria. Eu já amava e sabia fazer um “chá com pão” digno de orgulho pro meu pai, músico.

Resolvi trocar com ele por qualquer coisa. Ele aceitou. O que eu poderia fazer com aquela bateria infantil estridente, com prato de ferro, bumbo agudo, caixa sem esteira e um surdo que fazia jus ao nome? Levar na igreja, claro. Levei. Por amor aos meus pais, os líderes me deixaram tocar naquele domingo. Na hora de ir embora, me agradeceram sem muito carinho e pediram que eu não voltasse com aquele brinquedo na semana seguinte. Minha mágoa durou uns 20 minutos. Tempo suficiente para a razão ínfima de um menino me lembrar do fiasco que havia sido. Não por mim, somente, mas, sobretudo, porque aquele brinquedo tinha sido feito para ser o quê? Brinquedo… Não oferecia as condições básicas para ser um instrumento, ainda mais no contexto de um encontro onde se espera levar as pessoas à meditação e reflexão.

Com 19 anos, comprei minha primeira bateria. Uma Pearl ELX Export, com bumbo de 20’ e suportes suspensos, de forma que os tambores não eram furados. Era verde oliva, perolizada. Foi uma das companheiras mais lindas de minha jornada afetiva.

Não, não é tudo bateria, amigos e amigas. A primeira, por melhor que fosse minha intenção e a dos meus pais, era só um brinquedo. A outra, não. A outra era uma bateria. Não era a melhor do mundo, longe disso. Mas era uma senhora bateria.

Pois é exatamente isso que tá acontecendo.

Um dos erros mais importantes que estamos cometendo, muitas vezes sem intenções maldosas, é o de dizermos que nosso futuro pleito está se mostrando polarizado, tendo Bolsonaro numa ponta e o Haddad na outra. Piora ainda mais quando se diz que são dois lados da mesma moeda.

Goste você ou não, o PT é um partido com história dentro da democracia. Já elegeu inúmeros quadros para todos os cargos da vida pública. Foi e tem sido investigado, sendo que tais inquéritos começaram a se desenrolar durante o período no qual quem ocupava o mais alto escalão da política, a Sra. Dilma Roussef, era justamente do partido, isto é, ela mesma não usou nenhuma artimanha de inibição clara ou escusa para impedir que investigações que tinham seu próprio partido como alvo principal fossem desmanteladas. Ela não interveio, respeitando, nitidamente, as instâncias de poder. O nome disso é democracia. Mais do que isso, inclusive. É o fortalecimento das instituições que sevem para a manutenção do estado democrático de direito. É manter a isenção necessária para que cada instância de poder faça sem reservas o seu papel, inclusive, de fiscalizar as forças democráticas independentes, visando a manutenção do equilíbrio necessário para um sistema que se apoia em três alicerces.

O PT perdeu o poder, gostem e aceitem ou não os seus correligionários, por não usar o poder de forma exacerbada em seu favor, aceitem ou não os adversários.

O fato é que o Partido dos Trabalhadores foi punido, com justiça ou não, de forma institucional, tendo como pena a perda de seu mandato presidencial, que é coisa pra caramba.

O Bolsonaro é outra coisa, gente querida. Primeiro que a gente nem sabe qual é seu partido, o que denota um personalismo muito perigoso, mas isso é menos importante.

Bolsonaro é um candidato que, pelo discurso trivial, nem deveria ser candidato. Ele é notadamente um perigo para a democracia, a mesma democracia que permite que ele seja candidato, que está no leito de morte, com sérios riscos de ser comprometida, caso ele se eleja.

O candidato Bolsonaro deixa claro que não tem respeito pelas instituições que visa representar, quando diz que daria um golpe de estado no outro dia e que fecharia o congresso. Tudo bem, são declarações antigas. Contudo, ao escolher um vice de origem militar, que tem deixado clara sua visão obtusa acerca de como funciona a democracia e do quão primordial é o poder popular, dá sinais de que, de fato, não prima pela preservação e fortalecimento dos poderes, o que é vital para a manutenção do estado democrático de direito.

Ao acachapar minorias, mostra desconhecimento básico do conceito de inclusão social, que reserva a cada segmento, dentro da sociedade, o espaço de existir e, mais do que isso, ter a possibilidade de manter sua identidade garantida em pé de igualdade com qualquer outro grupo majoritário. As minorias não têm esse nome por serem inferiores em número, mas por sofrerem com a dificuldade de manutenção de seus direitos numa sociedade que está evoluindo, ainda.

Ainda sobre minorias, o Brasil é o país onde mais se mata Lgbtqi+ no mundo (uma pessoa a cada 19 horas). Neste recorte, dizer que seu sangue é mais confiável do que o de um homossexual, de que homossexualismo (o correto é homossexualidade) se resolve quando criança, dando uma surra no filho e, pior de tudo, que preferiria que o filho morresse num acidente do que se assumisse homossexual não é o puro exercício da liberdade de expressão, mas crime de lgbtfobia e incitação à violência.

Só ao não reconhecer, por exemplo, o direito de igualdade das mulheres, já retrocedemos 70 anos. Preservar o ambiente necessário para os avanços do empoderamento feminino é muito mais urgente e emancipador do que propor um projeto de castração química dizendo que isso é proteger as mulheres. Proteger as mulheres é possibilitar e lutar por um ambiente onde elas possam ser o que quiserem ser e fazer o que quiserem fazer sem terem medo de olhar para trás ou para o lado, sem precisarem se desdobrar ao extremo para terem o reconhecimento que um homem comum tem sem fazer muito esforço, proporcionar políticas públicas que inibam até à extinção da cultura do estupro e compor os espaços de poder na administração pública federal com um número significativo de mulheres, de forma que a sociedade seja, de fato, representada.

São inúmeros os outros argumentos para desconstruir esse engodo que tenta nos empurrar guela abaixo a falácia de que PT e Bolsonaro são lados de uma mesma moeda.

Não são.

Não há como serem.

Você não precisa votar no PT, claro. Pode escolher os demais quadros de esquerda ou direita de forma que a democracia avance em seu curso sem precisar preocupar-se em sobreviver.

Contudo, votar no candidato Bolsonaro é um contrassenso. É exercer seu direito democrático de abrir mão da democracia que, uma vez perdida, só será reconquistada sabe-se lá como…

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