Meu velho nunca disse que me ama

Meu velho nunca disse que me ama.
Pra um pisciano, isso faz alguma falta.
Ele teve que sobreviver a um pai muito violento e sem nenhum cuidado, que o forçou a tomar um porre aos oito anos de idade porque “beber era coisa de homem”, que o levava ao baile e traía minha avó na sua frente e ainda batia nela quando voltava pra casa.
A maioria de nós não imagina o que é isso e, ainda assim, sente falta do que essa geração não conseguiu nos oferecer por puro senso de sobrevivência.
Toda manhã ele me levou na escola que pagou com o sacrifício de não ter adquirido nada pra si mesmo. E me buscou no final da aula, me esperando na esquina debaixo pra não precisar passar pelo trânsito infernal da porta. Toda manhã.
Aprendi a pescar com ele, que me amarrava numa corda onde uma ponta ficava na minha cintura e a outra numa ‘arvore, de forma que eu conseguisse chegar só na beira da represa, mas não cair na água. Numa dessas, fui dando voltas na árvore, brincando, até ficar preso em cima de um formigueiro, sem ter pra onde correr…rs. Foi com ele que pesquei o primeiro lambari, tomei ferroada de mandi e engasguei com espinho de traíra.
Aos nove, um moleque tomou minha pipa na praia. Gritei por ele. Não me ouviu. Quando cheguei em sua cadeira, protestei: “eu, precisando do senhor, e o senhor não me escuta”. Contei o que aconteceu e essa história terminou no quintal da casa do moleque, que ele não sossegou até encontrar e pegar minha pipa de volta.
Não precisei me esforçar pra lembrar-me dessas histórias e de outras inúmeras, como quando me ensinou a dirigir, me levou pra fazer peneira no time da fábrica (não passei, claro), me matriculou na escola mais cara da cidade sem saber que eu só queria ficar perto da menina que gostava, me colocava pra cantar com o Reizinho sanfoneiro, acreditando em minha carreira sertaneja que, para o bem comum, nunca aconteceu e outras inúmeras que não vou contar aqui.
Meu velho nunca me falou que me amava.
Pra mim, que desperdicei tantos “eu te amo” a torto e a direito, não ouvir isso dele fez alguma falta.
Meu velho nunca falou que me amava, mas estava sempre lá, me amando como seu filho mais velho e me oferecendo sua presença silenciosa e terna.
Dizer que se ama e ouvir que é amado é tão bom quanto pouco. Uma nuvem bonita e vazia, se não acompanhada de presença.
E eu não troco sua presença em minha vida por nada, seu Dito.
Eu sei que você me ama. Eu sei.

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