Feliz?

Feliz dia dos pais, você me diria, ao que Camus responderia ao pé do meu ouvido: não ouça essa besteira. Não há dia feliz.

Entre os materialistas e os religiosos, fico com os existencialista.

Não erram.

1. Daniela era filha de um sacerdote religioso muito rígido que colocou-a pra fora de casa aos 16, quando descobriu que ela havia beijado um menino na boca. Anos mais tarde Daniela acompanha a mãe numa bateria de exames clínicos por conta de algo que a vem debilitando severamente há algum tempo. HIV positivo. Sim. Mas mãe, como isso se deu se o único homem de sua vida foi o pai? O pastor tinha um vício extraconjugal. O de fazer sexo anal com travestis, onde ele era a figura passiva da relação. Ambos já se foram, pai e mãe de Daniela.

2. Pedro era um homem ríspido e seco com sua família, que nunca conseguiu entender o porquê. Toda sua expressão emocional era destinada a pequenos eventos de violência, onde sua racionalidade cedia lugar a uma brutalidade ímpar. Pedro demora no banho e sua esposa entra de supetão, desconfiada de que algo poderia estar errado, uma vez que ele fazia tudo nos mesmos horários e da mesma maneira todos os dias. Pedro está deixado no chão, água escorrendo sobre seu corpo, chorando aquele choro doído de fazer dó. Meu pai, mulher. Meu pai se foi e eu não me despedi. Mas homem, não foi ele que agrediu você e seus irmãos a vida toda e ainda cegou sua mãe de um olho? Meu pai se foi, já não sou mais filho.

3. Francisco chega em casa e não há mais ninguém por ali. Uma carta curta. Francisco, agora você tem o que merece. Ninguém. Pode trabalhar à vontade que ninguém mais vai te esperar até você nunca chegar. Você nos deu muita coisas, mas só queríamos sua presença. Mas, Fabrício, eu dei tudo o que eles queriam. Francisco, eles queriam você. Você os perdeu para sua própria ausência. Fabrício, é que quando eu tinha 12 anos, desmaiei enquanto fazia a capina com meu pai. Ele me sacudiu e disse, menino, você é um fraco e preguiçoso, nunca terá nada na vida. Eu só queria provar pro meu pai que ele estava errado. O pai de Antônio já tinha morrido havia mais de 10 anos, mas sua voz continuava determinando a vida do filho.

O que há de comum nessas histórias. Muita coisa. A que mais me intriga é que todas são reais, seria só alterar alguns nomes e muitos de vocês diriam que essa é a sua história.

O que há de comum, também, é que todos os filhos das histórias acima postaram alguma lembrança boa, acompanhada de uma foto antiga e da mensagem de saudade.
Me explica isso, Edy, ateu.

O poder do amor e do perdão ou talvez da culpa ou, ainda, da completa falta de se saber o que fazer com esse buraco emocional que nos é aberto.

Religiosos e materialistas que guardem suas teses e considerações pueris.

Fico com Sartre: “importa menos o que a vida faz conosco do que aquilo que fazemos com o que a vida faz conosco”.

Os existencialistas não erram.

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