É por isso

Por que pensar assim com trinta e…
Não terminei. Eu esqueci minha idade. De verdade.
Não são muito anos não. Mas já não são tão poucos assim.

Já experimentei bastante coisa no chão dessa vida.
Muitas sensações, cheiros, gostos, desgostos, sentimentos diversos, antagônicos, extremos, opostos.

É impossível se definir uma biografia.
É impossível, inclusive, recontá-la, toda.

Então, elegemos algumas coisas que são comuns no relato todo, estabelecemos uma linha diretora e, a partir disso, escrevemos do lado esquerdo e do lado direito, os capítulos que nos descrevem.

Minha linha, conheço bem.

É uma insatisfação perene, muito de vez em quando, preenchida por algum contentamento pontual com algo que a vida me oferece. Parece negativo, mas não é, eu acho… É o reconhecimento da minha alma, anterior a qualquer possibilidade de intervenção de minha razão, de que eu (e acho que, no final das contas, estou acompanhado de muita gente) sou um ser infinito e de que nada que seja finito, portanto, nada que habita esta terra finita, tem a capacidade de me gerar este contentamento absoluto.

Minha natureza me diz que eu e meus irmãos somos seres de uma transcendência irrefutável, cujos objetos mais valiosos, neste mundo, ainda se mostram inadequados para preencher tamanho vazio cósmico que nos habita e que as coisas que mais chegam perto de nos inteirar são as imateriais.

Se somos esse projeto infinito, inseridos numa esfera tão repleta de finitude, o que nos preencheria? Só algo que remetesse ao eterno, e nada mais eterno do que o efêmero, aquilo que acontece ordinariamente, cotidianamente, sem, muitas vezes, que se perceba.

Portanto, amigos, como é que seremos completos, enchendo-nos de vazios? O consumo daria conta? A religião? As ideologias, os partidos, as estruturas sociais? A ciência? A lógica? A filosofia? O quê?

Onde é que repousaria nossa alma infinita, senão nos lampejos de eternidade que nos cercam de forma tão singelamente imperceptível?

Minha linha biográfica é a eterna insatisfação de uma alma infinita, que existe para procurar, perceber e usufruir das centelhas do eterno que existem aqui e ali, como numa brincadeira de esconde-esconde, onde o sagrado vai deixando pistas de que ele caminha por aqui, como eu e você, seres infinitos, sofrendo de finitude à procura do ser infinito, que sofre de eternidade.

É por isso que a vida é bonita e que as almas de todos são impressionantes, transcendentes e respeitáveis. E é por isso que a jornada nesta terra me parece valer a pena, mesmo que esta insatisfação crônica nos faça sofrer, porque, no final das contas, ela é a prova de que a vida é maior do que este mundo e nossa existência é mais infinita do que qualquer lógica que tente limitá-la e que se este anseio pelo eterno foi plantado em nós, é porque existe colheita num terreno para além do que conhecemos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *