As pessoas estão doentes

As pessoas estão doentes.

Nós estamos doentes enquanto pessoas.

Sempre salva um tanto de gente que, inclusive, é fundamental para que os demais não sucumbam.

É a partir dessa constatação e dessa compreensão, que poderemos encontrar alguma rota de fuga.

Se nos assumirmos doentes, então, procuraremos a cura.

Se seguirmos assim, como se tudo estivesse bem, caminharemos pra um fim muito triste.

Enquanto ainda temos o que nos mantém vivos, que usemos nossas cabeças pra olhar e pensar, e nossos corações pra bater e sentir.

Que nosso resquício de humanidade seja preservado em nós e por meio de nós, até que os dias sejam mais brandos e as pessoas mais sãs.

Só acredito em Deus se…

Só acredito em Deus se ele tiver mãos sujas de tocar em gente marginal e os pés empoeirados de andar muito sobre o chão excluído dessa terra.

Só acredito em Deus se o amor que ele diz ser a substância que o forma, for pra todos e todas, sem nenhuma exceção.

Se ele tiver uma mão suave pra passar no rosto de quem ninguém costuma tocar e a outra áspera de carregar um chicote que será usado no lombo, nos bolsos e nos corações de quem insiste em usurpar o fraco, em comercializar a fé e em protagonizar a maldade de toda ordem.

Se ele errar.

Se ele se arrepender, como o Cristo que diz um não veemente para uma mãe, mas se arrepende depois de assombrar-se com sua fé. E a atende.

Se ele sofrer sofrimentos muito, muito humanos e não perder a candura, nem a robustez. Se ele chorar de terror num dia, for torturado no outro e, ainda assim, olhar para o lado e reconhecer a humanidade naquele que foi julgado e condenado, absolvendo-o de forma radical e levando-o consigo ao porvir.

Só acredito em Deus se ele se deprimir com o mal, com o sofrimento de si mesmo e do outro, com a necessidade de se sofrer para se apurar o amor, e, ainda assim, não desistir.

Se ele demonstrar a arrogância humana de sentir-se maior quando se tem Deus ao lado, mas terminar sozinho, triste e humilde, vendo-se abandonado por tudo e todos, inclusive por si mesmo e a quem chamou de Pai.

Que se vale, algumas vezes, da bruteza que a vida impõe, mas volta atrás e assume a humildade da solidão como a interlocutora entre si e, inclusive, quem lhe fez mal.

Só acredito em Deus se ele for humano, totalmente humano, vazio de sua deidade e cheio das contradições que nos são gritantes.

E, sendo Deus, não julgue como usurpação o ser igual a deus, mas esvazie-se de si mesmo, assumindo a forma mais humana possível: a de servo.

Visualizado por Fabricio Cunha Dos Santos às 16:18




Velhos amigos

Os novos amigos podem parecer melhores que os velhos amigos.
Mas não são.

Os novos amigos podem parecer mais leves do que os velhos amigos.
Mas não são.

Os novos amigos podem parecer mais legais, mais divertidos, menos críticos, mais inclusivos, menos complicados e mais bem sucedidos.
Mas não são.

Os novos amigos nem deveriam ser chamados de amigos, ainda.

Amigos são aqueles que permanecem. Os que continuam pra além de e apesar de.

Amigo é o que permanece a despeito de nossas mazelas.
O que discorda, mas não sai do lado.
O que me prefere, inclusive, mais do que prefere a própria amizade.

Perdoem-me os pouquíssimos novos amigos, mas só amo os velhos.
Só os velhos.
Os que ficaram nessa jornada já não tão curta.
Tempestade e bonança.
Tempestade e bonança de novo.
Conheço-os bem. A seu favor e contra.
Conhecem-me melhor.
Não saio de perto deles, nem eles de perto de mim. Pra além do que sei e do que sabem, apesar do que vejo e do que veem, estão aqui para mim e por mim, assim como eu por eles.
Com quem divido as mesmas histórias de modos sempre novos, as novas histórias com os velhos exageros e muitos silêncios nada incômodos.

Meus velhos amigos sabem quem são.

E são os melhores que alguém poderia ter.

Fé que nasce da fé que morre

Minha fé faleceu.
O chão no qual caminhei por tanto tempo não estava mais lá.
Como se anda se não há chão?
Tive que parar até reencontrar onde pisar.
Minha fé ressuscitou.
Ressuscitou em outubro passado, no dia de nossa Senhora Aparecida.
Meu vizinho, que conheço desde a infância, organiza anualmente uma caminhada para Aparecida, como forma de agradecer as bênçãos recebidas ao longo do ano.
Só de caminhantes foram mais de mil. Mais uma equipe enorme que trabalha a logística anterior ao evento, a ida, o retorno e um grande almoço comemorativo que acontece na vila onde nasci e moro.
Minha vilinha para.
Os que não foram, trabalham pelos que foram.
Os familiares vêm receber os caminhantes.
A comoção é linda e natural.
O Ivan parou de beber.
O João foi agradecer a liberdade depois do encarceramento.
O Nikolas foi agradecer por mais um ano de trabalho.
Dona Terezinha, Dona Irene, Dona Solange, Seu Donizeti e outras muitas “donas” e “seus” acordam de madrugada pra preparar a refeição que vai alimentar a alegria do reencontro dos que foram com os que esperam, dos que se sacrificaram com os que já não conseguem, dos que creem com os que, como eu, já não creem.
Subi com meus filhos para o almoço. Quando saí dali, já não era o mesmo.
Salve Nossa Senhora Aparecida.
Salve esse povo bom e sofrido, que leva até ela as suas dores, alegrias e demandas.
Salve a fé sincera de quem sabe que não está sozinho nesse mundo estranho e bonito, o único que temos.
E salve a fé de quem, como eu, tem fé na fé das pessoas.
Abraço, Amarildo e família.
E obrigado.

Não é tudo a mesma coisa

Quando o Fredy Cunha fez 5 anos, ganhou uma bateria infantil do tio Humberto. Eu tinha 9, quase 10. O Fredy nunca gostou de bateria. Eu já amava e sabia fazer um “chá com pão” digno de orgulho pro meu pai, músico.

Resolvi trocar com ele por qualquer coisa. Ele aceitou. O que eu poderia fazer com aquela bateria infantil estridente, com prato de ferro, bumbo agudo, caixa sem esteira e um surdo que fazia jus ao nome? Levar na igreja, claro. Levei. Por amor aos meus pais, os líderes me deixaram tocar naquele domingo. Na hora de ir embora, me agradeceram sem muito carinho e pediram que eu não voltasse com aquele brinquedo na semana seguinte. Minha mágoa durou uns 20 minutos. Tempo suficiente para a razão ínfima de um menino me lembrar do fiasco que havia sido. Não por mim, somente, mas, sobretudo, porque aquele brinquedo tinha sido feito para ser o quê? Brinquedo… Não oferecia as condições básicas para ser um instrumento, ainda mais no contexto de um encontro onde se espera levar as pessoas à meditação e reflexão.

Com 19 anos, comprei minha primeira bateria. Uma Pearl ELX Export, com bumbo de 20’ e suportes suspensos, de forma que os tambores não eram furados. Era verde oliva, perolizada. Foi uma das companheiras mais lindas de minha jornada afetiva.

Não, não é tudo bateria, amigos e amigas. A primeira, por melhor que fosse minha intenção e a dos meus pais, era só um brinquedo. A outra, não. A outra era uma bateria. Não era a melhor do mundo, longe disso. Mas era uma senhora bateria.

Pois é exatamente isso que tá acontecendo.

Um dos erros mais importantes que estamos cometendo, muitas vezes sem intenções maldosas, é o de dizermos que nosso futuro pleito está se mostrando polarizado, tendo Bolsonaro numa ponta e o Haddad na outra. Piora ainda mais quando se diz que são dois lados da mesma moeda.

Goste você ou não, o PT é um partido com história dentro da democracia. Já elegeu inúmeros quadros para todos os cargos da vida pública. Foi e tem sido investigado, sendo que tais inquéritos começaram a se desenrolar durante o período no qual quem ocupava o mais alto escalão da política, a Sra. Dilma Roussef, era justamente do partido, isto é, ela mesma não usou nenhuma artimanha de inibição clara ou escusa para impedir que investigações que tinham seu próprio partido como alvo principal fossem desmanteladas. Ela não interveio, respeitando, nitidamente, as instâncias de poder. O nome disso é democracia. Mais do que isso, inclusive. É o fortalecimento das instituições que sevem para a manutenção do estado democrático de direito. É manter a isenção necessária para que cada instância de poder faça sem reservas o seu papel, inclusive, de fiscalizar as forças democráticas independentes, visando a manutenção do equilíbrio necessário para um sistema que se apoia em três alicerces.

O PT perdeu o poder, gostem e aceitem ou não os seus correligionários, por não usar o poder de forma exacerbada em seu favor, aceitem ou não os adversários.

O fato é que o Partido dos Trabalhadores foi punido, com justiça ou não, de forma institucional, tendo como pena a perda de seu mandato presidencial, que é coisa pra caramba.

O Bolsonaro é outra coisa, gente querida. Primeiro que a gente nem sabe qual é seu partido, o que denota um personalismo muito perigoso, mas isso é menos importante.

Bolsonaro é um candidato que, pelo discurso trivial, nem deveria ser candidato. Ele é notadamente um perigo para a democracia, a mesma democracia que permite que ele seja candidato, que está no leito de morte, com sérios riscos de ser comprometida, caso ele se eleja.

O candidato Bolsonaro deixa claro que não tem respeito pelas instituições que visa representar, quando diz que daria um golpe de estado no outro dia e que fecharia o congresso. Tudo bem, são declarações antigas. Contudo, ao escolher um vice de origem militar, que tem deixado clara sua visão obtusa acerca de como funciona a democracia e do quão primordial é o poder popular, dá sinais de que, de fato, não prima pela preservação e fortalecimento dos poderes, o que é vital para a manutenção do estado democrático de direito.

Ao acachapar minorias, mostra desconhecimento básico do conceito de inclusão social, que reserva a cada segmento, dentro da sociedade, o espaço de existir e, mais do que isso, ter a possibilidade de manter sua identidade garantida em pé de igualdade com qualquer outro grupo majoritário. As minorias não têm esse nome por serem inferiores em número, mas por sofrerem com a dificuldade de manutenção de seus direitos numa sociedade que está evoluindo, ainda.

Ainda sobre minorias, o Brasil é o país onde mais se mata Lgbtqi+ no mundo (uma pessoa a cada 19 horas). Neste recorte, dizer que seu sangue é mais confiável do que o de um homossexual, de que homossexualismo (o correto é homossexualidade) se resolve quando criança, dando uma surra no filho e, pior de tudo, que preferiria que o filho morresse num acidente do que se assumisse homossexual não é o puro exercício da liberdade de expressão, mas crime de lgbtfobia e incitação à violência.

Só ao não reconhecer, por exemplo, o direito de igualdade das mulheres, já retrocedemos 70 anos. Preservar o ambiente necessário para os avanços do empoderamento feminino é muito mais urgente e emancipador do que propor um projeto de castração química dizendo que isso é proteger as mulheres. Proteger as mulheres é possibilitar e lutar por um ambiente onde elas possam ser o que quiserem ser e fazer o que quiserem fazer sem terem medo de olhar para trás ou para o lado, sem precisarem se desdobrar ao extremo para terem o reconhecimento que um homem comum tem sem fazer muito esforço, proporcionar políticas públicas que inibam até à extinção da cultura do estupro e compor os espaços de poder na administração pública federal com um número significativo de mulheres, de forma que a sociedade seja, de fato, representada.

São inúmeros os outros argumentos para desconstruir esse engodo que tenta nos empurrar guela abaixo a falácia de que PT e Bolsonaro são lados de uma mesma moeda.

Não são.

Não há como serem.

Você não precisa votar no PT, claro. Pode escolher os demais quadros de esquerda ou direita de forma que a democracia avance em seu curso sem precisar preocupar-se em sobreviver.

Contudo, votar no candidato Bolsonaro é um contrassenso. É exercer seu direito democrático de abrir mão da democracia que, uma vez perdida, só será reconquistada sabe-se lá como…

Feliz?

Feliz dia dos pais, você me diria, ao que Camus responderia ao pé do meu ouvido: não ouça essa besteira. Não há dia feliz.

Entre os materialistas e os religiosos, fico com os existencialista.

Não erram.

1. Daniela era filha de um sacerdote religioso muito rígido que colocou-a pra fora de casa aos 16, quando descobriu que ela havia beijado um menino na boca. Anos mais tarde Daniela acompanha a mãe numa bateria de exames clínicos por conta de algo que a vem debilitando severamente há algum tempo. HIV positivo. Sim. Mas mãe, como isso se deu se o único homem de sua vida foi o pai? O pastor tinha um vício extraconjugal. O de fazer sexo anal com travestis, onde ele era a figura passiva da relação. Ambos já se foram, pai e mãe de Daniela.

2. Pedro era um homem ríspido e seco com sua família, que nunca conseguiu entender o porquê. Toda sua expressão emocional era destinada a pequenos eventos de violência, onde sua racionalidade cedia lugar a uma brutalidade ímpar. Pedro demora no banho e sua esposa entra de supetão, desconfiada de que algo poderia estar errado, uma vez que ele fazia tudo nos mesmos horários e da mesma maneira todos os dias. Pedro está deixado no chão, água escorrendo sobre seu corpo, chorando aquele choro doído de fazer dó. Meu pai, mulher. Meu pai se foi e eu não me despedi. Mas homem, não foi ele que agrediu você e seus irmãos a vida toda e ainda cegou sua mãe de um olho? Meu pai se foi, já não sou mais filho.

3. Francisco chega em casa e não há mais ninguém por ali. Uma carta curta. Francisco, agora você tem o que merece. Ninguém. Pode trabalhar à vontade que ninguém mais vai te esperar até você nunca chegar. Você nos deu muita coisas, mas só queríamos sua presença. Mas, Fabrício, eu dei tudo o que eles queriam. Francisco, eles queriam você. Você os perdeu para sua própria ausência. Fabrício, é que quando eu tinha 12 anos, desmaiei enquanto fazia a capina com meu pai. Ele me sacudiu e disse, menino, você é um fraco e preguiçoso, nunca terá nada na vida. Eu só queria provar pro meu pai que ele estava errado. O pai de Antônio já tinha morrido havia mais de 10 anos, mas sua voz continuava determinando a vida do filho.

O que há de comum nessas histórias. Muita coisa. A que mais me intriga é que todas são reais, seria só alterar alguns nomes e muitos de vocês diriam que essa é a sua história.

O que há de comum, também, é que todos os filhos das histórias acima postaram alguma lembrança boa, acompanhada de uma foto antiga e da mensagem de saudade.
Me explica isso, Edy, ateu.

O poder do amor e do perdão ou talvez da culpa ou, ainda, da completa falta de se saber o que fazer com esse buraco emocional que nos é aberto.

Religiosos e materialistas que guardem suas teses e considerações pueris.

Fico com Sartre: “importa menos o que a vida faz conosco do que aquilo que fazemos com o que a vida faz conosco”.

Os existencialistas não erram.

Meu velho nunca disse que me ama

Meu velho nunca disse que me ama.
Pra um pisciano, isso faz alguma falta.
Ele teve que sobreviver a um pai muito violento e sem nenhum cuidado, que o forçou a tomar um porre aos oito anos de idade porque “beber era coisa de homem”, que o levava ao baile e traía minha avó na sua frente e ainda batia nela quando voltava pra casa.
A maioria de nós não imagina o que é isso e, ainda assim, sente falta do que essa geração não conseguiu nos oferecer por puro senso de sobrevivência.
Toda manhã ele me levou na escola que pagou com o sacrifício de não ter adquirido nada pra si mesmo. E me buscou no final da aula, me esperando na esquina debaixo pra não precisar passar pelo trânsito infernal da porta. Toda manhã.
Aprendi a pescar com ele, que me amarrava numa corda onde uma ponta ficava na minha cintura e a outra numa ‘arvore, de forma que eu conseguisse chegar só na beira da represa, mas não cair na água. Numa dessas, fui dando voltas na árvore, brincando, até ficar preso em cima de um formigueiro, sem ter pra onde correr…rs. Foi com ele que pesquei o primeiro lambari, tomei ferroada de mandi e engasguei com espinho de traíra.
Aos nove, um moleque tomou minha pipa na praia. Gritei por ele. Não me ouviu. Quando cheguei em sua cadeira, protestei: “eu, precisando do senhor, e o senhor não me escuta”. Contei o que aconteceu e essa história terminou no quintal da casa do moleque, que ele não sossegou até encontrar e pegar minha pipa de volta.
Não precisei me esforçar pra lembrar-me dessas histórias e de outras inúmeras, como quando me ensinou a dirigir, me levou pra fazer peneira no time da fábrica (não passei, claro), me matriculou na escola mais cara da cidade sem saber que eu só queria ficar perto da menina que gostava, me colocava pra cantar com o Reizinho sanfoneiro, acreditando em minha carreira sertaneja que, para o bem comum, nunca aconteceu e outras inúmeras que não vou contar aqui.
Meu velho nunca me falou que me amava.
Pra mim, que desperdicei tantos “eu te amo” a torto e a direito, não ouvir isso dele fez alguma falta.
Meu velho nunca falou que me amava, mas estava sempre lá, me amando como seu filho mais velho e me oferecendo sua presença silenciosa e terna.
Dizer que se ama e ouvir que é amado é tão bom quanto pouco. Uma nuvem bonita e vazia, se não acompanhada de presença.
E eu não troco sua presença em minha vida por nada, seu Dito.
Eu sei que você me ama. Eu sei.

Minha religião

Esses dias eu fui numa festa. Um monte de gente comendo, falando alto, dançando, sorrindo. Num canto, uma senhora carrancuda. Perguntei ao amigo “quem é?”, “é minha mãe”, respondeu. E por que tá triste? Não tá triste, tá irritada e nervosa. Por quê? Porque é crente e estamos tocando músicas não cristãs na festa.
Que merda essa religião que castra o corpo, que enrijece a alma, enruga o rosto e recrudesce o espírito.  E não só o de seus adeptos, mas o de todos que se submetem mesmo que como alvo desse olhar austero.
Esses dias vi um programa em que um hare krishna passava uma semana na casa de uma família bem humilde e católica. Ele infernizou a casa em sete dias. Queria impor seus ritos e uma liturgia que contemplasse mais as suas necessidades religiosas do que a possibilidade de uma relação alegre entre diferentes. Lá pelo terceiro dia, as crianças da casa, principal aferidor de saúde emocional e alegria de um ambiente, já não aguentavam mais o sacerdote laranja.
Que merda essa religião que impõe ritos e liturgias que mais nos abstraem da vida e das relações do que nos projetam para o mundo e para os outros, oferecendo uma espiritualidade sadia.
Esses dias  uma menina evangélica foi agredida na escola porque tinha o cabelo comprido. Ela só tinha 12 anos e teve que mudar de escola e cidade por conta da hostilidade.
Esses dias foi uma outra menina de 11 anos, agredida a pedradas ao sair de um encontro do candomblé.
Outro dia foi uma menina de 11 anos, perseguida por uma freira num colégio por não saber rezar. Ficou sem a refeição por dias a fio, até, pela dor da fome, ter a coragem de contar para a mãe o que estava acontecendo.
As três poderiam ser amigas, confidentes, terem os mesmos sonhos e desejos castrados pelo medo de ser o que, talvez, nem saibam o quê.
Que merda essa não religião que não tolera a religião.
Que merda essa religião que desrespeita o outro e o agride por ter outra religião.
Que merda essa religião que não tolera a ausência da religião.
Em todas as circunstâncias a religião ou a falta dela são o problema aparente. Mas religião é coisa, é fenômeno social que pressupõe uma divindade, um código, um culto ou liturgia e adeptos. E, nessa equação, a única coisa que podemos analisar a avaliar com alguma perspectiva menos subjetiva são os adeptos, as pessoas. E, de forma muito superficial e simples, minha conclusão é óbvia: nosso problema são as pessoas, o que deixam que a religião faça com elas, o que fazem com a religião, o que se tornam sob essa influência e o que fazem consigo mesmas, com a vida e, sobretudo, com os outros à luz de sua religião.
E, nesse caso, religião não é tudo igual não, porque as pessoas não são iguais umas às outras. E, como vivemos numa sociedade selfie service de escolhas pessoais e de indivíduos autocentrados, aceito escolher a minha própria religião.
Minha religião é minha turma.
Não nos ofendemos com o que fez o Charlie Hebdo e não foi porque não somos muçulmanos, mas porque nossos símbolos são menos sacros que nossos ideais. Por esse mesmo motivo, não nos ofendemos com a transexual vestida de Jesus e “pregada” numa cruz na Parada Gay. Nossos símbolos nos remetem a algo maior do que eles próprios e, por isso, podem ser usados com o mesmo fim por outras pessoas.
Minha turma é brava, mas também é doce. Sabe fazer a vida gritar sem precisar levantar o tom de voz. Nossa causa vocifera, mas nós falamos serenamente baixo.
Priorizamos as pessoas em detrimento das estruturas, dos códigos e das fórmulas; as relações, diante dos projetos e as pequenas coisas face aos grandes empreendimentos.
Minha turma tem gente de várias religiões, mas com uma mesma bandeira, a de amar as gentes e buscar estruturas que as favoreçam, especialmente aos mais pobres, excluídos e marginalizados de toda ordem.
Minha religião é bonita. Tem muitas cores, muitas músicas, muitos ritmos, danças e vestimentas. Alguns se reúnem em templos, outros em casas, salões, quintais, parques, teatros, bares, onde o lugar é sempre menos importante do que “o que” se faz e o “com quem” se faz.
Minha turma respeita os outros, suas dores, suas dificuldades, suas lutas e celebra seus avanços, seu crescimento e sua autonomia. Não vende culpa, não comercializa o sagrado, não se aproveita das fraquezas, não requer obediência cega, não manipula e não é manipulável.
Minha religião dá muitos nomes ao mesmo Deus e procura expressá-lo de diversas formas, pela literatura, pela música, pelo serviço, pela batalha cotidiana por um mundo melhor e principalmente pelo modo como trata a vida e os outros.
Minha religião é minha turma.
Meu Deus é nosso.
Minha liturgia são as relações.
Minha espiritualidade é a vida.
Minha igreja são os outros.

O futebol tem jeito; a babaquice, nem sempre

Sempre fui louco por futebol.

Nunca soube jogar.

Me sobrou ser um torcedor fanático.

Escolhi o melhor: SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE.

Por conta disso e da trivialidade da idiotice, sempre me sobra uma brincadeira usando o Bambi, o bicha, o veado e etc.

Não só nunca liguei como sempre achei babaca. Eu sei lá. O mundo já andou tanto pra gente ainda se comportar assim, ainda mais porque são tantas as possibilidades de brincadeiras e trocadilhos no mundo do futebol, que a babaquice em teimar ser homofóbico me soa duplamente descabida.

Hoje, me mandaram essa foto. O ângulo sugere que o manequim com a roupa do São Paulo é gay. Claro que a legenda era outra babaquice.

Olhei a foto e gostei. Se o gay curte futebol e gosta de torcer por um time, pois que seja pelo meu São Paulo, o maior de todos. Que seja bem vindo e sinta-se total e completamente à vontade entre a gente. Que traga seu amor para torcer junto, mesmo que torça pra outro time.

Que a beleza e a magia do futebol sejam livres, acolhedoras, inclusivas e leves pra galera toda. TODA mesmo.

O futebol sempre tem jeito. Já a babaquice, nem sempre.

Sobre o Brasil “que dá certo”

Não, Maria Ribeiro, o Brasil que dá certo não é este que seguiu o trio elétrico do Baixo Augusta, no último sábado.

Esse é um Brasil legalzinho. Legalzinho pra você e até pra mim. Mas não é o Brasil que daria certo.

Eu não sou ranzinza.

Juro.

Mas quando pego ranço de alguma coisa, fico como quem engoliu o comprimido inteiro, mas só deglutiu metade.

O Acadêmicos do Baixo Augusta é um projeto que expressa demais a nova galera cult classe média engajada de esquerda.

São bonitos, são legais, são descolados, pautam as discussões da turma e estão no centro de São Paulo, estão do “lado certo da força”.

São mais do mesmo.

Repercutem um recorte da sociedade que mais parece uma galinha carijó. Aquela que bota um ovinho de nada e cacareja como se tivesse parido um avestruz.

Eu juro que não sou ranzinza.

Só foi de dar náusea ver aquela galera de colete laranja, fazendo perímetro com uma corda para restringir o povão de se aproximar do trio.

Povão não, aliás. Quem segue o trio do Baixo Augusta é parte dessa juventude paulistana descolada, que vive pensando um mundo melhor sem dizer bom dia pro porteiro.

Como é peculiar do Brasil, o cortejo do trio elétrico respeita de forma bem evidente a nossa cultura de castas.

Pra chegar bem perto do trio, só sendo “Global”, como deixam claras as fotos do dia do desfile, nas redes.

Não, não há fotos dos Brunos e Danielas que íam atrás do bando. Pra sair em foto de divulgação, só já tendo participado de, ao menos, um programinha da Globo.

O interessante é que tem bastante foto dos Joãos e Marias “ninguém”, afinal, eles estavam ali, bem perto das celebridades brancas, servindo-os e protegendo-os como de costume. Eles mesmos nem se dão conta de que só são bem vindos ali se for nesses termos.

Não, Maria. O Brasil não deu certo. E não dará enquanto não nos olharmos no espelho e assumirmos que reproduzimos no cotidiano aquilo que mais denunciamos de vez em quando.

O Brasil de verdade acordou de madrugada para pegar ônibus e metrô e ir até a Consolação servir vocês.

(em resposta ao artigo “Predicado”, de Maria Ribeiro, publicado no O Globo do dia 07/02)