Passado, presente, futuro…

Esperou chegar numa reta pra poder parar o carro na estrada de mão dupla.

Mão dupla.

De um lado, passado. Do outro, futuro.

Visitar seus lugares de infância teve um poder avassalador sobre a alma.

“O presente estava uma merda”, como ouvia do melhor amigo.

Experimentou esse estranho descompasso entre passado e presente, onde o passado parece sempre melhor. Como se esquecêssemos que o passado, quando era presente, também tinha seus momentos de merda.

Isso que dá brincar com o tempo.

O tempo é um titã. Um ser sobrenatural poderosíssimo, impossível de ser cooptado por nós, pobres… Passado a favor, titã amigo, vida tranquila. Passado contra, titã inimigo, vida desgraçada.

O passado tem o poder de redimir ou desgraçar a vida.

O fato é que ele estava ali, efervescendo em lembranças, em memórias de um tempo que parecia muito melhor do que o presente.

O outro lado da rodovia, o que lhe devolveria ao passado, parecia muito mais atraente.

O carro já estava apontado pro futuro.

Mas o presente era ali, naquela parada.

Era ali, naquele momento presente, que ele teria que resolver sua vida e decidir o lado onde trilharia o caminho.

Andou pra dentro do mato uns doze passos e sentou numa pedra.

Ficou ali mais de uma hora.

Lembrou. Chorou. Lembrou-se das humilhações da infância, das brigas com os primos mais velhos, de quando o pai foi embora e nunca mais voltou. Da morte da avó. Dos almoços requentados de ontem e anteontem, dos amores roubadores de alma, dos vividos e não vividos, dos fracassos, dos cheiros que as histórias ruins impregnavam na memória latejante.

A vida tinha suas belezas, mas eram as contingências que gritavam da memória seletiva, que havia apagado ou escondido debaixo do lençol enganoso do otimismo, a realidade mal passada.

O passado era bonito. O passado era feio. Assim como o
presente. Assim como o futuro. Assim como tudo.

A verdade é que a vida é esse contínuo diálogo entre aquilo que fomos e aquilo que somos, em vistas do que seremos.

E que é nessa relação dialógica entre o indivíduo, sua história e a vida, que vamos nos tornando quem somos. Se somos…

É nessa relação existencial que vamos dando vazão ao bem e ao mal. Ora contendo um, ora alimentando o outro, mas sempre tentando ser alguma merda que resvale na relevância. Relevância, o engodo do século.

Limpou o rosto e se levantou da pedra.

Sim, a vida era. Boa ou ruim, era. Era uma merda, mas era boa. Era a única alternativa.

Olhou para um lado e para o outro.

Balançou a cabeça na direção do passado como quem desdenha e virou-se lentamente na direção oposta. A única.

Ligou o carro e partiu