VOCÊ NÃO SABE


Não saber o que fazer.

Não saber aonde ir.

Não saber o que quer.

Não saber o que decidir.

Tão assustador, quanto normal.

Se é normal, por que, então, ser tão assustador?

Porque um monte de gente (nunca todo mundo) nos diz que a gente sempre tem que saber o que fazer, aonde ir, o que querer e o que decidir. E ainda dão nomes interessantes pra essas coisas, como “assertividade”, “foco”, “target”, “budget” e outro monte de conceitos modernos pra dar conta do que os antigos não deram, até que os modernos também fiquem antigos sem dar conta do que se propuseram.

Eu sei lá.

Sou um caipira moderno, mas ainda caipira. 

Gosto desse desdém para com a modernidade universal e alheia. 

Uso as tecnologias e as aprecio. Fico impressionado em como evoluímos e, claro, me utilizo desses avanços todos disponíveis. 

Ainda assim, não sei o que fazer, aonde ir, o que decidir, nem o que querer, muitas vezes. 

E tudo bem. 🙂

Tudo bem mesmo. 

Se você também não sabe, que ótimo. Quem sabe de tudo provavelmente não aprendeu quase nada. 

Saber de tudo nos impede de nos surpreendermos com o inusitado. Quanta coisa você e eu teríamos perdido se todos os planos tivessem dado certo, se todos os desejos tivessem sido atendidos, se soubéssemos todos os caminhos. Nos descaminhos foi onde aprendemos algumas das lições mais preciosas. 

Deixando a auto-ajuda pra lá, se você tem mais perguntas do que respostas, já andou bastante neste mundo, amigo e amiga. 

“Você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui.”

MEU PARTIDO


Na sociedade dos bens de consumo, o que transcende essa lógica acaba não tendo o valor devido.

O fato é que a gente vende o que tem valor em troca do que, pretensamente, atribui valor. 

Trabalhamos mais do que devemos. 

Assumimos mais coisas do que conseguimos. 

Aceitamos a prisão das expectativas e olhares alheios em demasia.

Aí vendemos o tempo pra comprarmos carro, oferecemos emoções em troca de coisas, comercializamos alma pra adquirirmos eletrônicos. 

A atitude mais radicalmente rebelde, hoje em dia, é a que procura inverter esses mourões que fincaram na gente antes mesmo nascermos. 

Nosso valor é intrínseco. A dignidade nos habita. Somos universos únicos, cheios de complexidades lindas e profundas e de belezas múltiplas muito fáceis de ver por olhos generosos e humanos. 

Tô escrevendo isso tudo pra te e me lembrar de uma coisa simples: o que tem valor, não tem preço. 

E desse conjunto de coisas, a alegria é das principais.


Estão querendo nos roubar a alegria. 

A tristeza se tornou projeto, porque, afinal, gente triste não pensa, não reage, não questiona, não enxerga pra além do que uma cabeça baixa consegue. 

Aqui não, meus velhos.

A alegria é meu partido. 

Posso praguejar um monte, questionar outro monte, fechar o semblante e até falar mais alto, mas a alegria me habita. Ela não é uma circunstância. Ela é um caminho. A alegria é um caminho. Uma forma de andar, ver e viver. 

Parafraseando a Dona Conceição Evaristo, “eles combinaram de nos ‘entristecer’, mas nós combinamos de ‘permanecermos alegres’.”

É isso!

CIDADÃO DE BEM

Eu sou um cidadão de bem.

Hoje, voltando do trabalho, parei para uma velha atravessar na faixa de pedestres.

Só eu e ela. 

Ninguém pra testificar o mérito. 

Nós somos o que somos quando ninguém está vendo. 

Eu, com o nome em todas as instituições de restrição de crédito, parei para a velha passar sem que ninguém estivesse vendo.

Procurado pela polícia, parei para a velha passar sem que ninguém estivesse vendo.

Consumidor de substâncias vaso e psicoativas, parei para a velha passar sem que ninguém estivesse vendo.

Meu país está mudando e estou acompanhando a mudança.

Odeio minorias, odeio políticas de redistribuição de renda, tenho vergonha de nossas universidades, prezo pelo estado mínimo, por uma imprensa controlada e por uma política de relação unilateral com os Estados Unidos, onde eles entram com o ferro e a gente com a raba.

Eu sou um cidadão de bem.

Mesmo que ninguém tenha visto, parei para aquela velha lerda atravessar a rua.