MARADONA, O DEUS POSSÍVEL

Pelé foi, é e continuará sendo o maior atleta de todos os tempos.

Posto isso, chegou a hora de eu confessar um dos segredos que guardei com mais cuidado ao longo dos meus pouco mais de 40 anos: sempre preferi Maradona. 

Diego Armando Maradona.

Eu o vi jogar muitas e muitas vezes porque, quando criança, algum dos canais abertos transmitia jogos do italiano, sorte num final de semana, azar nos outros dois ou três, pois vez ou outra transmitiam um jogo do Nápole. Sim, Maradona era maior que o próprio time, daí essa disparidade. Fazia muito mais sentido transmitir o Milan ou a Juve do que o modesto Nápole.

A TV não sabia de nada, por isso está falindo. 

Perdoem-me os moralmente irrepreensíveis, parecidos com Pelé. Sou Maradona,  eu me pareço tanto com esse cara tão cheio de contradições e tão aparentemente despreocupado com o que vão pensar disso, enquanto, por dentro, quieto e secretamente, sofre a dor do julgamento alheio, que me afeiçoei a ele naquela Copa na qual ele foi, mais do que expulso, exurgado… Não se faz isso com alguém como ele.  

Esqueçam a genialidade, óbvio. Isso é dele e só dele. Mas a amizade com Fidel, sair escondido da concentração para fazer um racha beneficente num bairro pobre de Nápoles, pra juntar a grana necessária pra cirurgia do filho de um torcedor, ter um camarote na casa do time de coração, assumir suas fragilidades sem nenhum orgulho mas com a coragem dos grandes, chorar, chorar, chorar, chorar. 

E desistir. 

É o que imagino. 

Ele acordando depois de um longo sonho onde todos os eventos de sua vida foram condensados numa ou duas noites. Ele acorda, vai até a janela, olha pra direita, pra esquerda, agradece, volta pra cama e parte.

O Deus possível. Irrepreensível com a bola nos pés e alta, profunda, perigosa e terrivelmente humano. 

Que encontres a paz que merece, Dom Diego, esse mundo foi, meeeeesmo, muito pequeno pra ti.

Urgentemente

Observo, no telefone, o número de uma amiga que não costuma me ligar. Atendo. Fabricio, você ainda escreve no O Vale? Respondo que sim. Eu estou tão indignada, ou melhor, triste e preocupada. Está em curso a organização de uma live aqui na área comum de meu prédio. A equipe conta com umas 15 pessoas, todos sem máscaras, andando pela área comum, onde é inevitável que todos os moradores passem para chegar às suas casas. E, pior, com a anuência do síndico. Eu não tenho com quem falar. Até tentei conversar com a equipe, com os vizinhos, mas não havia o que fazer naquele momento, por isso te liguei. O edifício fica num complexo de prédios na zona oeste da cidade, o que agrava a situação.

No mesmo dia, minha filha me manda o print onde a filha de um político proeminente da cidade experimentava looks pedindo aprovação de seus seguidores para que votassem em com qual deles ela deveria ir numa festa naquela mesma noite.

Eu juro que amo minha cidade, mas minha relação com ela é cada vez mais controversa.

A cidade suja votação no atual presidente foi da ordem de 70%.

A cidade que corta sua grama nos centros e mantém ilegal suas periferias para não precisar investir em saneamento e estruturas básicas.

Uma cidade tecnocrata e não tecnológica com uma compreensão de mundo tão tacanha que suprime seus artistas da noite enquanto permite que sua principal empresa, detentora de tecnologia de cunho confidencial e nacional, seja vendida a preço de bananas para uma multinacional.

Fui até a farmácia comprar os remédios do cotidiano. Não levei 20 minutos para realizar todo processo, tempo suficiente para ver o centro cheio e os bares dos bairros próximos de onde moro abarrotado de gente bebendo sua cerveja como se estivéssemos comemorando algo.

O vírus da ignorância, aparentemente não mata. Mata sim, tanto ou mais quanto o novo Corona, porque mata de muitas outras formas.

Por favor, gente querida, por favor, bom senso é patrimônio gratuito. Adquiram-no, transmitam-no, conversem com suas famílias, levem o momento grava a sério.

Lancemos mão dele, mais do que nunca, URGENTEMENTE.

Você acha que Deus se importa?

Com se você beija alguém do mesmo sexo, de outro sexo, do mesmo sexo de novo? Com se você ama alguém que tem a mesma opção sexual que você, ou não? Com se você tem mais quilômetros de viagem que o cunhado que leva álbuns novos de viagens novas já falando dos próximos planos de viagens novas que gerará os álbuns do próximo encontro de famílias?

Com a roupa que você usa e que te difere daquele e daquela que não tem uma roupa símbolo de deixar bem claro que você é superior ou superiora?

Com o CEP de onde você mora, ainda que grande parte das pessoas que você nunca viu, porque são invisíveis, nem cep tenham – no lugar onde eu moro, às vezes os Ubers cancelam a corrida, e tem cep?

Se você frequenta festas e encontros em lugares onde você olha à sua volta (e a verdade é que você não olha) e não vê ninguém diferente de você. Todos brancos e lindos e despreocupados e leves e sorridentes e esperando dar a hora dos motoristas ou pais buscarem ou de você buscar ou mandar alguém buscar teus filhos? Se você chama Deus de Deus, Jesus, Alá, Olorum, Brama, Jehová ou qualquer outro nome, desde que esse nome carregue em seu arcabouço uma fé genuína?

Como cresci cristão e sou louco por Jesus de Nazaré, escolho terminar esse ensaio com palavras dele, deixando bem claro com o que o sagrado mais humano de todos se importa:

“O Espírito de Deus está sobre mim; ele me escolheu para pregar a mensagem das boas-novas aos pobres, enviou-me para anunciar perdão aos prisioneiros e a recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e indefesos”.