Urgentemente

Observo, no telefone, o número de uma amiga que não costuma me ligar. Atendo. Fabricio, você ainda escreve no O Vale? Respondo que sim. Eu estou tão indignada, ou melhor, triste e preocupada. Está em curso a organização de uma live aqui na área comum de meu prédio. A equipe conta com umas 15 pessoas, todos sem máscaras, andando pela área comum, onde é inevitável que todos os moradores passem para chegar às suas casas. E, pior, com a anuência do síndico. Eu não tenho com quem falar. Até tentei conversar com a equipe, com os vizinhos, mas não havia o que fazer naquele momento, por isso te liguei. O edifício fica num complexo de prédios na zona oeste da cidade, o que agrava a situação.

No mesmo dia, minha filha me manda o print onde a filha de um político proeminente da cidade experimentava looks pedindo aprovação de seus seguidores para que votassem em com qual deles ela deveria ir numa festa naquela mesma noite.

Eu juro que amo minha cidade, mas minha relação com ela é cada vez mais controversa.

A cidade suja votação no atual presidente foi da ordem de 70%.

A cidade que corta sua grama nos centros e mantém ilegal suas periferias para não precisar investir em saneamento e estruturas básicas.

Uma cidade tecnocrata e não tecnológica com uma compreensão de mundo tão tacanha que suprime seus artistas da noite enquanto permite que sua principal empresa, detentora de tecnologia de cunho confidencial e nacional, seja vendida a preço de bananas para uma multinacional.

Fui até a farmácia comprar os remédios do cotidiano. Não levei 20 minutos para realizar todo processo, tempo suficiente para ver o centro cheio e os bares dos bairros próximos de onde moro abarrotado de gente bebendo sua cerveja como se estivéssemos comemorando algo.

O vírus da ignorância, aparentemente não mata. Mata sim, tanto ou mais quanto o novo Corona, porque mata de muitas outras formas.

Por favor, gente querida, por favor, bom senso é patrimônio gratuito. Adquiram-no, transmitam-no, conversem com suas famílias, levem o momento grava a sério.

Lancemos mão dele, mais do que nunca, URGENTEMENTE.

Você acha que Deus se importa?

Com se você beija alguém do mesmo sexo, de outro sexo, do mesmo sexo de novo? Com se você ama alguém que tem a mesma opção sexual que você, ou não? Com se você tem mais quilômetros de viagem que o cunhado que leva álbuns novos de viagens novas já falando dos próximos planos de viagens novas que gerará os álbuns do próximo encontro de famílias?

Com a roupa que você usa e que te difere daquele e daquela que não tem uma roupa símbolo de deixar bem claro que você é superior ou superiora?

Com o CEP de onde você mora, ainda que grande parte das pessoas que você nunca viu, porque são invisíveis, nem cep tenham – no lugar onde eu moro, às vezes os Ubers cancelam a corrida, e tem cep?

Se você frequenta festas e encontros em lugares onde você olha à sua volta (e a verdade é que você não olha) e não vê ninguém diferente de você. Todos brancos e lindos e despreocupados e leves e sorridentes e esperando dar a hora dos motoristas ou pais buscarem ou de você buscar ou mandar alguém buscar teus filhos? Se você chama Deus de Deus, Jesus, Alá, Olorum, Brama, Jehová ou qualquer outro nome, desde que esse nome carregue em seu arcabouço uma fé genuína?

Como cresci cristão e sou louco por Jesus de Nazaré, escolho terminar esse ensaio com palavras dele, deixando bem claro com o que o sagrado mais humano de todos se importa:

“O Espírito de Deus está sobre mim; ele me escolheu para pregar a mensagem das boas-novas aos pobres, enviou-me para anunciar perdão aos prisioneiros e a recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e indefesos”.

Passado, presente, futuro…

Esperou chegar numa reta pra poder parar o carro na estrada de mão dupla.

Mão dupla.

De um lado, passado. Do outro, futuro.

Visitar seus lugares de infância teve um poder avassalador sobre a alma.

“O presente estava uma merda”, como ouvia do melhor amigo.

Experimentou esse estranho descompasso entre passado e presente, onde o passado parece sempre melhor. Como se esquecêssemos que o passado, quando era presente, também tinha seus momentos de merda.

Isso que dá brincar com o tempo.

O tempo é um titã. Um ser sobrenatural poderosíssimo, impossível de ser cooptado por nós, pobres… Passado a favor, titã amigo, vida tranquila. Passado contra, titã inimigo, vida desgraçada.

O passado tem o poder de redimir ou desgraçar a vida.

O fato é que ele estava ali, efervescendo em lembranças, em memórias de um tempo que parecia muito melhor do que o presente.

O outro lado da rodovia, o que lhe devolveria ao passado, parecia muito mais atraente.

O carro já estava apontado pro futuro.

Mas o presente era ali, naquela parada.

Era ali, naquele momento presente, que ele teria que resolver sua vida e decidir o lado onde trilharia o caminho.

Andou pra dentro do mato uns doze passos e sentou numa pedra.

Ficou ali mais de uma hora.

Lembrou. Chorou. Lembrou-se das humilhações da infância, das brigas com os primos mais velhos, de quando o pai foi embora e nunca mais voltou. Da morte da avó. Dos almoços requentados de ontem e anteontem, dos amores roubadores de alma, dos vividos e não vividos, dos fracassos, dos cheiros que as histórias ruins impregnavam na memória latejante.

A vida tinha suas belezas, mas eram as contingências que gritavam da memória seletiva, que havia apagado ou escondido debaixo do lençol enganoso do otimismo, a realidade mal passada.

O passado era bonito. O passado era feio. Assim como o
presente. Assim como o futuro. Assim como tudo.

A verdade é que a vida é esse contínuo diálogo entre aquilo que fomos e aquilo que somos, em vistas do que seremos.

E que é nessa relação dialógica entre o indivíduo, sua história e a vida, que vamos nos tornando quem somos. Se somos…

É nessa relação existencial que vamos dando vazão ao bem e ao mal. Ora contendo um, ora alimentando o outro, mas sempre tentando ser alguma merda que resvale na relevância. Relevância, o engodo do século.

Limpou o rosto e se levantou da pedra.

Sim, a vida era. Boa ou ruim, era. Era uma merda, mas era boa. Era a única alternativa.

Olhou para um lado e para o outro.

Balançou a cabeça na direção do passado como quem desdenha e virou-se lentamente na direção oposta. A única.

Ligou o carro e partiu

VOCÊ NÃO SABE


Não saber o que fazer.

Não saber aonde ir.

Não saber o que quer.

Não saber o que decidir.

Tão assustador, quanto normal.

Se é normal, por que, então, ser tão assustador?

Porque um monte de gente (nunca todo mundo) nos diz que a gente sempre tem que saber o que fazer, aonde ir, o que querer e o que decidir. E ainda dão nomes interessantes pra essas coisas, como “assertividade”, “foco”, “target”, “budget” e outro monte de conceitos modernos pra dar conta do que os antigos não deram, até que os modernos também fiquem antigos sem dar conta do que se propuseram.

Eu sei lá.

Sou um caipira moderno, mas ainda caipira. 

Gosto desse desdém para com a modernidade universal e alheia. 

Uso as tecnologias e as aprecio. Fico impressionado em como evoluímos e, claro, me utilizo desses avanços todos disponíveis. 

Ainda assim, não sei o que fazer, aonde ir, o que decidir, nem o que querer, muitas vezes. 

E tudo bem. 🙂

Tudo bem mesmo. 

Se você também não sabe, que ótimo. Quem sabe de tudo provavelmente não aprendeu quase nada. 

Saber de tudo nos impede de nos surpreendermos com o inusitado. Quanta coisa você e eu teríamos perdido se todos os planos tivessem dado certo, se todos os desejos tivessem sido atendidos, se soubéssemos todos os caminhos. Nos descaminhos foi onde aprendemos algumas das lições mais preciosas. 

Deixando a auto-ajuda pra lá, se você tem mais perguntas do que respostas, já andou bastante neste mundo, amigo e amiga. 

“Você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui.”

MEU PARTIDO


Na sociedade dos bens de consumo, o que transcende essa lógica acaba não tendo o valor devido.

O fato é que a gente vende o que tem valor em troca do que, pretensamente, atribui valor. 

Trabalhamos mais do que devemos. 

Assumimos mais coisas do que conseguimos. 

Aceitamos a prisão das expectativas e olhares alheios em demasia.

Aí vendemos o tempo pra comprarmos carro, oferecemos emoções em troca de coisas, comercializamos alma pra adquirirmos eletrônicos. 

A atitude mais radicalmente rebelde, hoje em dia, é a que procura inverter esses mourões que fincaram na gente antes mesmo nascermos. 

Nosso valor é intrínseco. A dignidade nos habita. Somos universos únicos, cheios de complexidades lindas e profundas e de belezas múltiplas muito fáceis de ver por olhos generosos e humanos. 

Tô escrevendo isso tudo pra te e me lembrar de uma coisa simples: o que tem valor, não tem preço. 

E desse conjunto de coisas, a alegria é das principais.


Estão querendo nos roubar a alegria. 

A tristeza se tornou projeto, porque, afinal, gente triste não pensa, não reage, não questiona, não enxerga pra além do que uma cabeça baixa consegue. 

Aqui não, meus velhos.

A alegria é meu partido. 

Posso praguejar um monte, questionar outro monte, fechar o semblante e até falar mais alto, mas a alegria me habita. Ela não é uma circunstância. Ela é um caminho. A alegria é um caminho. Uma forma de andar, ver e viver. 

Parafraseando a Dona Conceição Evaristo, “eles combinaram de nos ‘entristecer’, mas nós combinamos de ‘permanecermos alegres’.”

É isso!

CIDADÃO DE BEM

Eu sou um cidadão de bem.

Hoje, voltando do trabalho, parei para uma velha atravessar na faixa de pedestres.

Só eu e ela. 

Ninguém pra testificar o mérito. 

Nós somos o que somos quando ninguém está vendo. 

Eu, com o nome em todas as instituições de restrição de crédito, parei para a velha passar sem que ninguém estivesse vendo.

Procurado pela polícia, parei para a velha passar sem que ninguém estivesse vendo.

Consumidor de substâncias vaso e psicoativas, parei para a velha passar sem que ninguém estivesse vendo.

Meu país está mudando e estou acompanhando a mudança.

Odeio minorias, odeio políticas de redistribuição de renda, tenho vergonha de nossas universidades, prezo pelo estado mínimo, por uma imprensa controlada e por uma política de relação unilateral com os Estados Unidos, onde eles entram com o ferro e a gente com a raba.

Eu sou um cidadão de bem.

Mesmo que ninguém tenha visto, parei para aquela velha lerda atravessar a rua. 

Sobre a sua tristeza e a alegria disponível

Pensa comigo.

Você já parou pra pensar que grande parte de suas tristezas são bem irrelevantes?

Te juro que não é falta de empatia com teu sofrimento.

É que nós abrimos portas demais para que influências demais, expectativas demais, imposições demais entrem em nosso cotidiano sem um filtro mínimo de avaliação da circunstância e aferição do fato ou de seu protagonista.

Isto é, muita coisa e muita gente que sequer merecem, acabam tendo poder de influência sobre você e seu cotidiano.

Aí a gente fica sobrecarregado, cansado emocionalmente, de semblante tenso ou caído, sem ao menos pararmos para ver o tamanho e a legitimidade do que está nos gerando esse comportamento.

As grandes tristezas da vida virão, é certo. Uma perda irreparável, o final de um grande amor, uma doença mais complexa. Elas vêm, deixam suas marcas eternas e vão.

São essas pequenas tristezas do dia a dia que vão nos roubando o que de melhor podemos cultivar: a alegria.

Ainda não deu a hora do almoço e você já está aí abatido, exausta, com o rosto fechado, os dentes apertados sem nem saber direito o porquê.

Pergunte-se se está tudo bem, agora.

Se a resposta for não, investigue se essa tristeza tem legitimidade e se o seu autor ou autora têm importância suficiente para te deixar assim.

Faça isso agora mesmo.

E se a resposta for sim, que a leveza que te habita seja uma boa juíza de aferição do que merece ou não te afetar.

Que teu dia seja incrível.

Ainda dá tempo!

As pessoas estão doentes

As pessoas estão doentes.

Nós estamos doentes enquanto pessoas.

Sempre salva um tanto de gente que, inclusive, é fundamental para que os demais não sucumbam.

É a partir dessa constatação e dessa compreensão, que poderemos encontrar alguma rota de fuga.

Se nos assumirmos doentes, então, procuraremos a cura.

Se seguirmos assim, como se tudo estivesse bem, caminharemos pra um fim muito triste.

Enquanto ainda temos o que nos mantém vivos, que usemos nossas cabeças pra olhar e pensar, e nossos corações pra bater e sentir.

Que nosso resquício de humanidade seja preservado em nós e por meio de nós, até que os dias sejam mais brandos e as pessoas mais sãs.

Só acredito em Deus se…

Só acredito em Deus se ele tiver mãos sujas de tocar em gente marginal e os pés empoeirados de andar muito sobre o chão excluído dessa terra.

Só acredito em Deus se o amor que ele diz ser a substância que o forma, for pra todos e todas, sem nenhuma exceção.

Se ele tiver uma mão suave pra passar no rosto de quem ninguém costuma tocar e a outra áspera de carregar um chicote que será usado no lombo, nos bolsos e nos corações de quem insiste em usurpar o fraco, em comercializar a fé e em protagonizar a maldade de toda ordem.

Se ele errar.

Se ele se arrepender, como o Cristo que diz um não veemente para uma mãe, mas se arrepende depois de assombrar-se com sua fé. E a atende.

Se ele sofrer sofrimentos muito, muito humanos e não perder a candura, nem a robustez. Se ele chorar de terror num dia, for torturado no outro e, ainda assim, olhar para o lado e reconhecer a humanidade naquele que foi julgado e condenado, absolvendo-o de forma radical e levando-o consigo ao porvir.

Só acredito em Deus se ele se deprimir com o mal, com o sofrimento de si mesmo e do outro, com a necessidade de se sofrer para se apurar o amor, e, ainda assim, não desistir.

Se ele demonstrar a arrogância humana de sentir-se maior quando se tem Deus ao lado, mas terminar sozinho, triste e humilde, vendo-se abandonado por tudo e todos, inclusive por si mesmo e a quem chamou de Pai.

Que se vale, algumas vezes, da bruteza que a vida impõe, mas volta atrás e assume a humildade da solidão como a interlocutora entre si e, inclusive, quem lhe fez mal.

Só acredito em Deus se ele for humano, totalmente humano, vazio de sua deidade e cheio das contradições que nos são gritantes.

E, sendo Deus, não julgue como usurpação o ser igual a deus, mas esvazie-se de si mesmo, assumindo a forma mais humana possível: a de servo.

Visualizado por Fabricio Cunha Dos Santos às 16:18




Velhos amigos

Os novos amigos podem parecer melhores que os velhos amigos.
Mas não são.

Os novos amigos podem parecer mais leves do que os velhos amigos.
Mas não são.

Os novos amigos podem parecer mais legais, mais divertidos, menos críticos, mais inclusivos, menos complicados e mais bem sucedidos.
Mas não são.

Os novos amigos nem deveriam ser chamados de amigos, ainda.

Amigos são aqueles que permanecem. Os que continuam pra além de e apesar de.

Amigo é o que permanece a despeito de nossas mazelas.
O que discorda, mas não sai do lado.
O que me prefere, inclusive, mais do que prefere a própria amizade.

Perdoem-me os pouquíssimos novos amigos, mas só amo os velhos.
Só os velhos.
Os que ficaram nessa jornada já não tão curta.
Tempestade e bonança.
Tempestade e bonança de novo.
Conheço-os bem. A seu favor e contra.
Conhecem-me melhor.
Não saio de perto deles, nem eles de perto de mim. Pra além do que sei e do que sabem, apesar do que vejo e do que veem, estão aqui para mim e por mim, assim como eu por eles.
Com quem divido as mesmas histórias de modos sempre novos, as novas histórias com os velhos exageros e muitos silêncios nada incômodos.

Meus velhos amigos sabem quem são.

E são os melhores que alguém poderia ter.