Só acredito em Deus se…

Só acredito em Deus se ele tiver mãos sujas de tocar em gente marginal e os pés empoeirados de andar muito sobre o chão excluído dessa terra.

Só acredito em Deus se o amor que ele diz ser a substância que o forma, for pra todos e todas, sem nenhuma exceção.

Se ele tiver uma mão suave pra passar no rosto de quem ninguém costuma tocar e a outra áspera de carregar um chicote que será usado no lombo, nos bolsos e nos corações de quem insiste em usurpar o fraco, em comercializar a fé e em protagonizar a maldade de toda ordem.

Se ele errar.

Se ele se arrepender, como o Cristo que diz um não veemente para uma mãe, mas se arrepende depois de assombrar-se com sua fé. E a atende.

Se ele sofrer sofrimentos muito, muito humanos e não perder a candura, nem a robustez. Se ele chorar de terror num dia, for torturado no outro e, ainda assim, olhar para o lado e reconhecer a humanidade naquele que foi julgado e condenado, absolvendo-o de forma radical e levando-o consigo ao porvir.

Só acredito em Deus se ele se deprimir com o mal, com o sofrimento de si mesmo e do outro, com a necessidade de se sofrer para se apurar o amor, e, ainda assim, não desistir.

Se ele demonstrar a arrogância humana de sentir-se maior quando se tem Deus ao lado, mas terminar sozinho, triste e humilde, vendo-se abandonado por tudo e todos, inclusive por si mesmo e a quem chamou de Pai.

Que se vale, algumas vezes, da bruteza que a vida impõe, mas volta atrás e assume a humildade da solidão como a interlocutora entre si e, inclusive, quem lhe fez mal.

Só acredito em Deus se ele for humano, totalmente humano, vazio de sua deidade e cheio das contradições que nos são gritantes.

E, sendo Deus, não julgue como usurpação o ser igual a deus, mas esvazie-se de si mesmo, assumindo a forma mais humana possível: a de servo.

Visualizado por Fabricio Cunha Dos Santos às 16:18