Fé que nasce da fé que morre

Minha fé faleceu.
O chão no qual caminhei por tanto tempo não estava mais lá.
Como se anda se não há chão?
Tive que parar até reencontrar onde pisar.
Minha fé ressuscitou.
Ressuscitou em outubro passado, no dia de nossa Senhora Aparecida.
Meu vizinho, que conheço desde a infância, organiza anualmente uma caminhada para Aparecida, como forma de agradecer as bênçãos recebidas ao longo do ano.
Só de caminhantes foram mais de mil. Mais uma equipe enorme que trabalha a logística anterior ao evento, a ida, o retorno e um grande almoço comemorativo que acontece na vila onde nasci e moro.
Minha vilinha para.
Os que não foram, trabalham pelos que foram.
Os familiares vêm receber os caminhantes.
A comoção é linda e natural.
O Ivan parou de beber.
O João foi agradecer a liberdade depois do encarceramento.
O Nikolas foi agradecer por mais um ano de trabalho.
Dona Terezinha, Dona Irene, Dona Solange, Seu Donizeti e outras muitas “donas” e “seus” acordam de madrugada pra preparar a refeição que vai alimentar a alegria do reencontro dos que foram com os que esperam, dos que se sacrificaram com os que já não conseguem, dos que creem com os que, como eu, já não creem.
Subi com meus filhos para o almoço. Quando saí dali, já não era o mesmo.
Salve Nossa Senhora Aparecida.
Salve esse povo bom e sofrido, que leva até ela as suas dores, alegrias e demandas.
Salve a fé sincera de quem sabe que não está sozinho nesse mundo estranho e bonito, o único que temos.
E salve a fé de quem, como eu, tem fé na fé das pessoas.
Abraço, Amarildo e família.
E obrigado.