Linger

Tava descendo o anel viário, quando a moto parou. Ela sempre para nos temporais.

Ouvindo The Cranberries, desci e sentei na beira da rua. Era o final de uma curva. Deu pra parar a moto num canto e sentar embaixo de uma árvore.  Não tem iluminação ali, nem calçada. Só um escurão e algumas árvores. Sentei na raiz de uma.

Chovia tanto que a terra nem conseguia sugar a água, que escorria pela encosta até chegar milimetricamente na minha bunda, já muito molhada. Eu ouvia The Cranberries quando tinha 16, 17 anos. Aí parei um tempão e voltei num dia desses.

Passaram-se muitos anos. Muitos.

Muitos carros, muita gente, muitas casas pra ir embora, muita agenda pra atender, muito trabalho pra realizar e finalizar, muito desafio, muito desafeto, muita gente passando ali por aquela curva do “S” que junta o fim do anel viário com o começo da fundo do vale. Muita gente e muita coisa que passou por minha vida entre as fases de ouvir Cranberries.

O mesmo coração do menino de 16 estava batendo ali, naquele homem de 40.

O mesmo.
Tanta coisa boa.
Tanta coisa ruim.
Tanta gente boa.
Tanta gente…

O mesmo coração batia ali, naquele corpo cansado e molhado.

Levantei e levei a moto pela mão até o posto Sete Estrelas. Uns 300 metros de muita memória, lágrima e risada. Cada enxurrada que um carro me jogava, uma história pra rir.

Lembrei que estamos em janeiro e meu aniversário de 40 anos é em março. Que, anos atrás, programei secretamente minha festa de 40. Seria o “Boteco do Fabricio”, com música caipira, comida pesada, cerveja e coca bem geladas, decoração bonitinha e muitos, muitos amigos.

Será impossível.

Além de custar muito mais caro do que eu poderia pagar, já não tenho os muitos amigos. O Benjamin apareceu pra me ajudar. Não sei de onde saiu, mas era, justamente, um mecânico de moto que caiu no crack e apareceu ali, feito um anjo com aparência de demônio.

– É só jogar ar do calibrador aí na região da bonina. Deixa comigo. – me disse num interlúdio muito breve enquanto contava sua história.

A moto funcionou. Deixei-a esquentando um pouco, enquanto ouvia aquela história que ele contava como quem come um prato de comida depois de muitos dias de fome. Parou de repente, engasgado pelo choro, quando citou a filha.

Percebi que era o ponto onde devíamos parar. Eu abracei o Benjamin, que não entendeu nada. Soltei e agarrei de novo.

– Vem cá, cabôco. Você é um dos caras mais legais que conheci em quase 40 anos. Em março, farei 40. Me fala onde você mora, que quero te chamar pra festa.

A gente acha que a vida é o que aparece por aí. Que nada.

A vida é justamente o que não aparece. Essas minhas lágrimas molhadas dentro do capacete, uma moto quebrada e um tanto de memórias pra lamentar e celebrar. E esses estranhos que entram e saem de nossas vidas, ora deixando bem, ora deixando mal, mas sempre maiores do que nossos julgamentos.

Sempre protagonistas numa história própria. Triste e feliz.

E por mais que, aos 16, “I thought nothing could go wrong. But I was wrong. I was wrong.” Aos 40, mesmo quando de vez em quando, a gente quer que acabe, “Do you have to let it linger? Do you have to. Do you have to. Do you have to let it linger?”

Sim, a vida precisa continuar. Pelo menos até o dia em que ela mesma decidir nos deixar.

You have to let it linger!

O novo formador de opinião

Um dos papéis que apresentam grande desserviço à nova configuração social, diretamente influenciada pelas redes, é o de “formador de opinião”.

Não que não seja importante.

Vejamos bem. Uma opinião digna de ser levada em consideração, num passado recente, era subsidiada por um arcabouço teórico significativo, sustentado por muita leitura, observação, estudo sério e experiência.

Com o advento das redes sociais, uma grande porcentagem das pessoas foi automaticamente catapultada à condição de mestre, doutor e, mais ainda, pós doutor em praticamente tudo.

É o retorno da velha formação em Filosofia, que englobava considerável experiência de vida e profundidade acadêmica, só que, hoje: SEM FORMAÇÃO NENHUMA.

Mais do que dar pena da vergonha alheia que passam, é de se assustar, como essa pretensa sabedoria virtual gera gente má, mal intencionada, belicosa, intransigente, amarga, intrometida, despreparada, só que, tudo isso, com coragem, palanque e disposição ao ridículo.

Toda crítica e constatação deveriam demandar alguma proposição.

Pois então, sinto muito.

Não a tenho.