E Einstein estava certo…

Foi num estalo de tempo que minha quinta passada se conectou com hoje, sete dias depois.

Einstein nunca foi poeta, mas também tem razão. O tempo não é nada linear.

Minha quinta só fez sentido hoje, quinta, quando, saindo do shopping, bem na cancela do estacionamento estava escrito: “se quer sempre o melhor para seu filho, venha fazer a festa dele aqui”. Era a propaganda de um buffet infantil. Ruim por sinal. Buffet e propaganda.

Os buffets conseguiram quando o certificado de “o melhor para seu filho”?!

Eu tenho três. Eu erro tanto com todos e cada um deles. Mas não há ninguém nesse universo que queira saber mais do que eu o que é melhor para eles.

Ninguém…

Quinta passada, fui visitar a casa onde nasci. Tão simples, pequena e velhinha. Parei um tanto em cada cômodo, mostrando-os aos meus filhos e sobrinho. Quando cheguei no barracão, fiquei mais tempo. Esperei que saíssem e fiquei ali, parado, quieto.

Quando crescemos, não sabemos se nos lembramos de fato de algum evento, se a repetição da contação nos dá a impressão de que estivemos nele, ou se são as fotos que nos sugerem esta confusão entre o estar e o lembrar-se.

Eu fiz um aninho ali naquele barracão. Minha festa foi ali. E não, eu não lembro da festa. Mas lembro de algo anterior à ela. Eu lembro. Juro. Nunca fiz regressão. Mas lembro. Juro.

Era minha mãe, concentrada e ocupada ali no quarto único, fazendo cada uma das lembrancinhas e objetos e enfeites de decoração da festa. Minuciosamente. Sozinha. Cada objetozinho que seria usado por meia dúzia de horas de uma festa de um aninho do primeiro filho, ali naquele barracão humilde da Vila Terezinha.

Foi a festa mais incrível que uma criança poderia ter. A minha. Sim, a minha festinha de um ano, feita à mão pelo ser que mais me amava neste mundo.

Minha quinta-feira passada fez mais sentido, hoje, quinta.

Senti-me amado ali, naquela cancela de estacionamento, como em poucas vezes. O amor não respeita o tempo e o espaço.

Caro buffet e marqueteiro ruins, vocês não sabem de nada.

Einstein nunca foi poeta, mas estava certo.

Graça

Não preciso olhar onde.

Meu entorno imediato tem uns 2%, no máximo, de amigos “bem sucedidos”.

Mais 18% de amigos “empatados” em 0 x 0 com as expectativas “mínimas” que a vida cap(e)talista impõe sem que percebamos, quase.

Os demais são sobreviventes. Ferrados, endividados, derrotados, abaixo da linha do padrão que se estende sobre essa sociedade insustentável.

Desses 80% restantes, 90% se sentem culpados por serem o estereótipo da “derrota” sócio econômica, mesmo que sejam boa gente, bons pais e mães, pessoas do bem e de bem.

Somos sobreviventes amigos e amigas.

Sobreviventes.

Num período em que as diferenças se acentuam, percebam que somos a maioria. E por que não sermos felizes assim?

Somos sobreviventes, amigos e amigas.

Sejamos, pra além disso, felizes e contentes com o patrimônio que, de fato, tem valor.

Nosso patrimônio imaterial.

Sejamos felizes e contentes, amigos e amigas.
Isso ainda é de graça e por graça.

Números

Já são 11. Não dormi 4. Pra chegar às 13, saio até 12. Mas aí, gastarei 30. Se sair daqui 30, gasto 15. Chego e ainda tenho tempo pra 1 água ou 2 cafés. Já são 4 anos nesse projeto que era pra 2. Somos 11. Já fomos 25. Com a baixa de 14, ainda demoraremos 2 ou 3 para terminarmos as 7 torres.

Eu devia mesmo era ter feito aquele concurso em 2006. Tinha que estudar 7, 9 horas por 200 dias a fio. Mas garantiria 5 ou 6 mil por mês. Um dissídio de 7%, verba extra a cada 5 e aposentadoria depois de 25.

Agora já faz 9. Passei da idade máxima, 30. Passei muito. Tinha 30 em 2006. Sou de 76. Fiz 41 esses dias.

Nunca imaginei que a crise dos 40 fosse verdadeira. É. Tomo 4 comprimidos pra repor 2 hormônios e conseguir dar 1 a cada 3 ou 4 dias. Passo 12, 13 horas trabalhando, 6 vezes por semana, 50 semanas por ano, nos últimos 20 anos, ao menos.

Preciso pagar esses 200 metros do solo que piso em cima de umas 240 cabeças que moram nos 20 andares embaixo, mais as faculdades dos meus 2, 17 e 19, que não vejo há 7, 8 meses.

Eu vendo meu tempo em troca de números que não substituem o tempo que vendo. Eu compro números. Depois de todas as contas que faço e que fazem, o saldo é claro.

Zero.

O saldo é zero.