Minha consciência é negra

Dizem que sou branco. Sempre disseram. Nunca entendi muito bem esse negócio de cor. A gente é. É e ponto.

Ainda mais eu, que cresci na Vila Terezinha. Muitos de meus amigos eram negros. Mesmo na escola que estudei, onde se pagava mensalidade, um dos meus melhores amigos era o Marcelo, que descobri que era negro quando deixei de ser criança. Na verdade, foi quando deixei de ser criança que descobri que existiam os negros e os brancos.

Foi também quando percebi que os negros, em geral, sofriam mais do que os brancos.

Mais crescido, conheci o Marcos Davi, pastor negro, militante fundador do Movimento Negro Evangélico. Com ele, conheci as histórias mais tristes desse demônio conhecido pelo nome de preconceito , mas também conheci as histórias mais lindas. Foi quando me interessei pela vida do Martin Luther King e li umas 5 biografias seguidas. Quando conheci a Rosa Parks, Mandela, Desmond Tutu e meu conterrâneo Zumbi dos Palmares. Fui o único “branco” militante no Movimento Negro Evangélico por um tempo. Não era um movimento de negros ou brancos ou negros e brancos. Era um movimento de amigos.

Trabalhei em periferias, em escolas públicas, em igrejas simples, onde são mais “negros” do que “brancos”. Vi in loco os dados do IPEA se concretizando em assassinatos de amigos, filhos, pais, na desigualdade dos ganhos, na indignidade do desemprego e na falta de perspectiva para aqueles que sonhavam (quando a realidade, cedo, não lhes roubava os sonhos) com um futuro melhor.

Mas cresci no meio do barulho, do sorriso farto, da vida simples e do contentar-se com pouco, características peculiares de meus irmãos “menos favorecidos”.

Nesse dia especial, saúdo o Bidu, o Junior Salvador Lopes, o Ricardo Augusto, a Djamila, a Nilza Valeria Zacarias Nascimento, a Preta Ary, o Ariovaldo Santos, o JB Magalhães, o Paulo Lins e tantos outros amigos. Gente que amo.

Dizem que temos raça e que ela se caracteriza pela cor. Mas nunca ouvi ninguém dizer que consciência tem cor. E como minha consciência não tem cor, eu escolho o “negro” para colori-la.

Não que seja possível sentir a dor que tantos e tantas desses meus amigos e amigas já sentiram em suas vidas. Mas que a força da celebração e o empenho na luta sobrepujem toda maldade, nesse dia ao menos, como sinal de luz para dias cada vez melhores.

Celebremos, amigos, o dia da nossa consciência. A minha é negra.

Nova fábrica joseense: bem-vinda!

São José está uma está uma pista de rali Aproveitem, jovens e adultos inconsequentes. Sem radares nas vias. Dá pra atingir 160 Km/h no Anel Viário. Deve-se frear um pouquinho antes da curva do Objetivo, mas já dá pra entrar acelerando novamente assim que a tangente for completada. Na altura da entrada do Parque Industrial, atinge-se a velocidade máxima.

Não, não… Não se enganem, meninos e meninas. Os radares estão escondidos aqui e acolá. Sim. Seja bem vinda, Indústria da Multa. Já temos até sede para oferecer. Pode ser um pedaço da Fundação Cultural, que anda sucateada mesmo. Reitero a função primária dos radares e qualquer outro instrumento inibidor de um comportamento que gere risco ou dano social: a de educar o cidadão. A multa não é, nem deve nunca ser, uma possibilidade de receita, mesmo que para o uso em algo legítimo.

A multa é um importante regulador de comportamento no trânsito, mas não um fim em si mesma. Sendo assim, esconder radares atrás de placas é um absurdo. Se não pode ser visto, não cumprirá sua função primária: a de inibir a transgressão. E, como dito acima, não é essa a sua finalidade. Podem fazer alternâncias, usar radares móveis, pensar em alternativas que gerem educação e maturidade no trânsito de nossa cidade. Mas o modo que estão tentando implementar é inaceitável. Não tem propósito, nem resultado justificável. Prefeito querido, não duvido de vossas boas intenções, mas não menospreze sua própria inteligência e a de sua equipe.

Muito menos a nossa..

 

Os mortos

Nunca fui muito de ir ao cemitério.

Ía mais quando criança.

Meu pai sempre respeitou os mortos. Foi um habilidoso carregador de caixões em ofícios fúnebres. Em cortejo de amigos importantes, saía até em foto no jornal carregando o defunto.

Perdi gente muito querida nos últimos anos.

Isso me fez adquirir esse hábito.

De vez em quando vou ao cemitério. Vou sozinho. Visito minha avó, minha tia, o Roberto.

Converso um pouco. Finjo que me ouvem.

Sei que não me ouvem. Mas eu os ouço.

Minha avó pergunta do meu pai. “O Tim tá bem?”. Respondo que sim, que já está andando de novo e que sente saudade. Falo de mim, que eu nunca mais tomei café, nem comi suspiro. Falo que minha tia, que sempre morou com ela, está sobrevivendo até bem.

Minha tia pergunta de cada filho. Falo do que sei. Às vezes, minto. Não digo que, depois que ela se foi, não nos reunimos mais. Falo que minha mãe sente muito a sua falta. Que colocou uma foto dela no quarto. E que chora escondido de vez em quando.

Ouço o Roberto me falando com aquela voz rouca, me chamando de “teólogo”, com um respeito cheio de ironia, falando pausadamente, não acreditando no que lhe reporto, mas me dizendo pra continuar.

Acho mesmo que eles não me ouvem. Sei lá.

Mas eu os ouço. Disso, tenho certeza.

Eu os escuto, cada um deles. Os escuto porque vivem em mim, são parte de mim, do melhor do que sou.

Por isso vou ao cemitério. Pra lembrar que aqueles que nos amaram e a quem amamos, continuam vivos em nós e, em nós, viverão para sempre, assim como quero viver em meus amigos, em meus filhos e em seus filhos…