Quarenta e dois anos

Quarenta e dois anos.

Quarenta e dois anos atrás.

Quarenta e dois.

Silvaldo Leug Vieira retratava uma das maiores farsas de toda ditadura militar.

Aquele homem franzino, de expressão forte e personalidade resignada.

Não foi capturado. Por vontade própria, depois de haver sido procurado por agentes da Polícia Civil, apresentou-se no temido DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), de onde não sairia vivo.

Sete horas depois, Silvaldo, aluno de fotografia criminalística na própria Polícia, foi convocado para seu primeiro trabalho sigiloso, fotografar aquele homem que havia cometido suicídio, enforcando-se de um altura impossível de se morrer.

Vieira, 22 anos, sabia que estava presenciando uma fraude. Só não sabia da estatura social de Vladimir Herzog, chefe de jornalismo da TV Cultura, militante pacífico do Partido Comunista Brasileiro, amigo, marido e pai de duas crianças.

Duas noites antes, o jornalista Paulo Markun o havia avisado que não deveria ir ao DOI-CODI, pelo contrário, deveria fugir. Herzog não atendeu. Era impossível que algo lhe acontecesse assim, de forma clara, uma vez que nada teriam para aludir contra ele.

Aconteceu.
Ninguém registrou as horas de tortura. Ninguém gravou os gritos de dor e desespero.
Uma Yashica 6×6 TLR, clicada pelo jovem Silvaldo, imortalizou aquele homem já sem vida. “Cliquei com medo. Não me deixaram nem fazer as tomadas que qualquer fotógrafo faria. Cliquei e, assim que a foto foi feita, me tomaram tudo”, lamenta o fotógrafo que partiu do Brasil anos depois, para nunca mais voltar.

E nós ficamos aqui, com o gosto amargo na boca. Gosto que não passa.

Quarenta e dois anos depois, o espírito livre de Vladimir ainda paira sobre os ares de uma democracia instável e confusa, denunciando toda censura como absurdo e toda tortura, velada ou escancarada, como crime.

Quarenta e dois anos depois.

É por isso

Por que pensar assim com trinta e…
Não terminei. Eu esqueci minha idade. De verdade.
Não são muito anos não. Mas já não são tão poucos assim.

Já experimentei bastante coisa no chão dessa vida.
Muitas sensações, cheiros, gostos, desgostos, sentimentos diversos, antagônicos, extremos, opostos.

É impossível se definir uma biografia.
É impossível, inclusive, recontá-la, toda.

Então, elegemos algumas coisas que são comuns no relato todo, estabelecemos uma linha diretora e, a partir disso, escrevemos do lado esquerdo e do lado direito, os capítulos que nos descrevem.

Minha linha, conheço bem.

É uma insatisfação perene, muito de vez em quando, preenchida por algum contentamento pontual com algo que a vida me oferece. Parece negativo, mas não é, eu acho… É o reconhecimento da minha alma, anterior a qualquer possibilidade de intervenção de minha razão, de que eu (e acho que, no final das contas, estou acompanhado de muita gente) sou um ser infinito e de que nada que seja finito, portanto, nada que habita esta terra finita, tem a capacidade de me gerar este contentamento absoluto.

Minha natureza me diz que eu e meus irmãos somos seres de uma transcendência irrefutável, cujos objetos mais valiosos, neste mundo, ainda se mostram inadequados para preencher tamanho vazio cósmico que nos habita e que as coisas que mais chegam perto de nos inteirar são as imateriais.

Se somos esse projeto infinito, inseridos numa esfera tão repleta de finitude, o que nos preencheria? Só algo que remetesse ao eterno, e nada mais eterno do que o efêmero, aquilo que acontece ordinariamente, cotidianamente, sem, muitas vezes, que se perceba.

Portanto, amigos, como é que seremos completos, enchendo-nos de vazios? O consumo daria conta? A religião? As ideologias, os partidos, as estruturas sociais? A ciência? A lógica? A filosofia? O quê?

Onde é que repousaria nossa alma infinita, senão nos lampejos de eternidade que nos cercam de forma tão singelamente imperceptível?

Minha linha biográfica é a eterna insatisfação de uma alma infinita, que existe para procurar, perceber e usufruir das centelhas do eterno que existem aqui e ali, como numa brincadeira de esconde-esconde, onde o sagrado vai deixando pistas de que ele caminha por aqui, como eu e você, seres infinitos, sofrendo de finitude à procura do ser infinito, que sofre de eternidade.

É por isso que a vida é bonita e que as almas de todos são impressionantes, transcendentes e respeitáveis. E é por isso que a jornada nesta terra me parece valer a pena, mesmo que esta insatisfação crônica nos faça sofrer, porque, no final das contas, ela é a prova de que a vida é maior do que este mundo e nossa existência é mais infinita do que qualquer lógica que tente limitá-la e que se este anseio pelo eterno foi plantado em nós, é porque existe colheita num terreno para além do que conhecemos.

Maria, Aparecida

Gosto muito da teoria do estranhamento de Marx.

Ele diz que os mais pobres, como que no intuito de transporem suas limitações econômicas, investem em projetos maiores, como a igreja por exemplo, para se sentirem comunitariamente bem sucedidos, já que não se sentirão pessoalmente.

O problema é que quando vão frequentar a catedral, fruto de seu investimento, estranham tamanha suntuosidade, expressão já não mais de seu projeto coletivo, mas da grande diferença entre sua realidade e a daquela construção.

Não gosto das catedrais e do que elas reproduzem, mas aprendi a gostar de Aparecida, a expressão brasileira de Maria, a mãe de meu Jesus.

Uma santa que é “a nossa cara”, a cara da mãe brasileira, “preta” e pobre, que vive à margem, lutando pela vida e pela sobrevivência dos seus filhos.

Por que milhões de casas em nosso país têm uma imagem de Aparecida pendurada n’algum cômodo? Porque, diferente da catedral, ela é a imagem da empatia. É parte da família brasileira. É a figura daquela que, negra e mulher, tendo vencido a adversidade da vida, pode inspirar-nos a vencer também as “catedrais” das dificuldades que se impõem sobre o povo sofrido de nosso país.

Quantas Marias e Aparecidas e Maria Aparecidas conhecemos, mulheres que carregam no nome um legado de luta, revestido da beleza e da singeleza que adornam e força feminina.

Nesse dia 12, Maria, Aparecida, a mãe brasileira de Jesus, mulher, preta e pobre, que luta pela vida e pela sobrevivência de seus filhos, tem meu respeito.

Diferente do que produzem as catedrais e seu espírito, você é a imagem da mulher brasileira.

 

O prato do dia

Um monte de gente escreve.

Isso é tão bom.

Escrever é alargar ao extremo as fronteiras do ser.

Num mar de tantas palavras, expressões, orações, sentimentos, por que se escrever? Ou melhor, escrever o quê? E pra quem?

Eu escrevo porque amo. Porque, quando escrevo, converso comigo mesmo. Não me preocupo em ser lido, mesmo escrevendo para o ser. Ao ser lido, me misturo com o outro.

Escrevo pra mim. É uma ação quase involitiva.

Escrevo para o outro. Pra que meus capítulos sejam ampliados na vivência alheia. Para ser identificado e para me identificar. Ser reconhecido e reconhecer.

O que escrevo? Qual é esse meu “o quê”? Meu “o quê” é o prato do dia. 
Eu escrevo sobre o prato do dia.

Tem dia que é feijoada, cheia de cores e sabores. Ninguém come feijoada sozinho ou quando está triste. Feijoada é abundância. 
Tem dia que é carne vermelha na brasa. Um bom churrasco nunca é saboreado solitariamente. Churrasco é presença, é preparo e cheiro, regado a conversa alta.
Tem dia que é arroz e feijão. Não tem graça nenhuma, mas é necessário, alimenta, mantém vivo.
Tem dia que é angu. Só angu. E com caroço. Sem graça, sem sal e enganoso. Você morde com tudo e quase quebra o dente, achando que não tinha nada dentro daquela gosma sem graça. E tinha. Um caroço duro, pra acabar de ferrar.
Tem dia que é morango com leite condensado. E você (especialmente com mais de 20), sabe muito bem como se come essa sobremesa impudica.

Sou o mais trivial de todos os escritores. O mais óbvio dos autores.

Um cozinheiro das palavras.

Um degustador de orações.

Escrevo sobre o prato do dia.

Às vezes, com graça.

Noutras, sem graça nenhuma.

Mas esse é meu “o quê” e sou feliz assim.